
Izabel Vitusso Sua origem em família espírita e a necessidade, por questões profissionais, de mudar-se diversas vezes de cidade fizeram de Sr. Neimer Sebastião Masotti um depositário e disseminador da cultura espírita. Fizeram também com que ele, como trabalhador em diversas frentes de trabalhos, mantivesse uma visão bastante arejada sobre delicadas interpretações acerca do nosso comportamento diante dos fundamentos espíritas. Sua experiência na direção de reuniões de desobsessão iniciou-se em 1962 e em quase todas as cidades por que passou, teve a oportunidade de dirigir grupos de trabalhos. Vindo para São Paulo em 1982, passou a fazer parte da equipe de colaboradores do Centro Espírita União, no bairro Jabaquara, uma casa bastante conhecida pela organização e diversidade de trabalhos, principalmente na divulgação doutrinária, com programas de rádio, TV e editora. Convidado a falar sobre reuniões mediúnicas, nos concedeu esta simpática entrevista!
Correio Fraterno: O que de mais importante o senhor colheu nesses anos todos participando em reuniões mediúnicas? N.M.: No esforço de entender as pessoas, você acaba tendo obrigação de se renovar. Diante disso, os conceitos que eram tidos como finais antigamente, com o passar do tempo adquiriram para mim outros valores. Quando comecei com certo grupo mediúnico, quis transmitir e ao mesmo tempo me investi de humildade. Então sempre dizia que os espíritos era quem tudo faziam. Me colocava como simples colaborador. Um dia eles me disseram que quem fazia éramos nós. Eles colaboravam fazendo a parte deles. Fiquei muito desajeitado e desapontado, pois senti como se fosse uma censura. Por que eles não achavam boa aquela minha posição? Não é interessante que sejamos humildes, sem reivindicar nenhum direito, nem mérito? A partir daí percebi que muito malandramente eu estava transferindo para eles a responsabilidade e ao dizer que somente eles é quem fazem eu deixava a idéia de que nada do que desse errado era culpa minha. Entretanto todos os espíritos atuam, ainda que seja na sutilidade, no envolvimento para que assumamos posição. Se você em busca de orientação diz ao dr. Bezerra [de Menezes] que está pensando em fazer... ele não espera você acabar a frase e diz: faça! Porque no fazer você erra, acerta e faz. Os espíritos são peças imprescindíveis. Não se faz sessão mediúnica sem espíritos. A organização é fundamental dos dois lados. Mas não cogite em transferir a responsabilidade absoluta para o outro plano. Quer assumir? Assuma. Não quer? Não é obrigado! Gosta de fazer? Faça, agüente as conseqüências e colha os méritos. No começo cometemos os erros, depois vai diminuindo. Sei lá se vai diminuindo. Vamos tendo mais experiências e percebendo falhas que antigamente não percebíamos. C.F.: Kardec fala muito sobre a necessidade do preparo para reunião. Como fica o preparo do médium, com a falta de tempo e correria da atualidade? N.M.: Quando nós falamos em preparo, logo nos lembramos de algumas providências. Descansar antes da sessão, meditar, ler, o que realmente não deixa de ser a melhor forma para se preparar. Mas quando você está atropelado pelas circunstâncias, você deve ir à sessão mediúnica sem o remorso de não ter se preparado. Nestas situações, muitas vezes você desenvolve umas ações brilhantes, agradáveis. Em outras, muito embora você se prepare, o desempenho fica a desejar! Não se pode condicionar o desempenho exclusivamente à preparação. Mas nem por isso o médium pode achar que não mais é necessário se preparar. É interessante a expressão preparar. Se você está em atividade e interagindo na vida diária com pessoas, muitas vezes estabelece ligações que poderão contribuir com os trabalhos a serem realizados na sessão mediúnica, encaminhando para lá espíritos necessitados. Quem está em atividade tem mais possibilidade de realizações. O Chico [Xavier] tinha muita facilidade de trabalhar mediunicamente, mas quando estava sem fazer nada ia procurar o pobre, o presidiário, o doente, fazendo a interação. C.F.: Kardec explana ricamente sobre as características para uma boa reunião. Mas na visão do senhor, qual o segredo para um grupo mediúnico bem equilibrado? N.M.: Quando Chico começou a trabalhar foi recomendado se apoiasse em três pilastras: disciplina, disciplina, disciplina. O grupo precisa muito de disciplina, porque ela serve para ordenar e não deixar se criar desvios. Mas apenas com disciplina o grupo não produz. Não haverá o motor da ação de realização, só há contenção. O que faz a realização é cada uma das pessoas se sentir bem umas com as outras e todas estarem percebendo o trabalho que está sendo feito. Outra característica que aponta um grupo mediúnico bem equilibrado é a melhoria gradativa nos indivíduos que dela participam. O melhoramento do grupo se dá na instrução, que é importante, e no relacionamento, entre todos, ampliando a difusão do amor. À medida que cada um coteja o que faz e o que observa com seus conhecimentos, vai sendo compelido a trabalhar estes conteúdos dentro de si mesmo. Neste comportamento, o grupo evolui sempre. Observamos estas mudanças no pensamento, nas idéias, nos objetivos e sentimentos em relação a muitas coisas que não tínhamos percebido. C.F.: Qual o segredo para o sucesso em nossa reforma íntima? N.M.: Eu não procuro a reforma íntima. Ela nunca foi meu objetivo. Deus me fez bem feito e não é de reforma, mas sim de evolução que estou precisando. De melhoria. E, analisando as ocorrências do que estou fazendo, com acuidade, posso me desenvolver. É muito perigoso ficar centrado em cima da chamada reforma íntima. Porque se você se propõe a reformar, não tem tempo de fazer. Fica tentando consertar aqui, consertar ali, mexendo nos buracos passados e não olhando para frente. Você não progride. Se fosse o caso de olhar para trás e logo achar os caminhos: errei nisso e vou fazer aquilo, ainda vai, mas a maioria das pessoas que se dedica à reforma é infeliz, se sente mal construída, mal amada, ao passo que aquela que não se preocupa tanto com isso vive com melhor acerto e interação possível, se aceitando do jeito que é, com os defeitos que tem. Vai aos poucos se aperfeiçoando e consegue colher agora a felicidade que o outro não tem e só terá quando se descomplicar. C.F.: André Luiz no Livro Missionários da Luz faz referência à quantidade de espíritos que nascem com uma predisposição para o desenvolvimento da tarefa mediúnica, mas acabam não dando cumprimento a ela. Por que isso acontece? Como o médium pode saber qual a tarefa ideal a realizar? N.M.: Ele não tem que saber qual a tarefa ideal. Ele tem que saber o que pode fazer hoje e fazer e não ficar preocupado com o final. Se ele não estiver fazendo bem o de hoje, ele não vai fazer bem o que ele acha que deve fazer. Não pode se julgar um missionário que vai fazer uma revolução no mundo se não consegue tocar o seu dia-a-dia. Por outro lado, nós sabemos que o desenvolvimento mediúnico não é um a imposição. É resultado de maturação que o Criador respeita por demais, atento ao livre-arbítrio de cada um, enquanto ele tiver. Como a independência existe, o médium traz alguns valores, mas às vezes é despertado para outras atividades e pode postergar para outra oportunidade aquilo que poderia fazer. Muitos podem acabar imaginando que a grande finalidade de se desenvolver a mediunidade é receber os espíritos, quando isso é apenas uma das habilidades que pode ser desenvolvida. Agora, aquele que tem a faculdade e a despreza, deixa de se utilizar de um grande instrumento do qual é dotado. Ser médium não significa ter sido punido. E sim contemplado! É lógico que, tendo que utilizar esse valor a mais, além daqueles a que se está habituado, existe a necessidade do treinamento. Além disso, a mediunidade é interior e com diferentes posturas, que muitas vezes fogem dos padrões que as vezes estabelecemos. Ela é um processo de dentro para fora. Quando chega alguém e diz vai fazer isso ou aquilo no outro, tome cuidado, porque cada um de nós desenvolve e faz aquilo que pode do jeito que pode, desenvolvendo-se intimamente. C.F.: O Chico teve sempre a presença ostensiva de Emmanuel ao seu lado. Isso não foi de certa forma uma sustentação ou até indução para a continuidade de sua tarefa mediúnica? N.M.: Chico tinha uma humildade muito grande e muitas vezes atribuía a Emmanuel os méritos do que realizava. Mas nunca fugiu às responsabilidades. Também dizer que não estavam numa perfeita sintonia não é verdade. Temos vários exemplos de acontecimentos que ilustram o respeito de Emmanuel ao livre-arbítrio do Chico. Dizer que foi Emmanuel que fez o Chico, não se faz justiça. Chico se fez. É que nós não estamos acostumados a lidar com pessoas humildes. Eles se escondem e nós julgamos que eles não têm valor. C.F.: Faz-se sempre referência que ao médium é pedida uma cota a mais de abnegação. Para o senhor, é difícil uma pessoa ser médium? N.M.: Admiro as pessoas que se entregam ao trabalho. A expressão cota de sacrifício tem relação direta com a disposição ou não para se fazer o trabalho. Procuramos em cursos e palestras deixar claro que para alguém fazer alguma coisa de bom, precisa criar dentro de si a necessidade de o fazer. Quando ele passa a fazer, estará atendendo a uma necessidade pessoal dele mais que a necessidade do outro. Aí é que está o grande mérito, o que também deixa de ser sacrifício. Quando se faz as coisas por sacrifício, poderá estar beneficiando muitas pessoas, mas não estará se beneficiando do trabalho. Trabalho assim não traz renovação. A idéia de que Deus gosta de nos ver fazendo sacrifícios a serem recompensados após a morte, não é alimentada pelos espíritas. Texto publicado no jornal Correio Fraterno, n. 397. Maio/junho de 2004 |