
Um projeto familiar em prol da memória Izabel Vitusso Quem passa pela rua Dr. Bacelar, na Vila Clementino, em São Paulo, antes do cruzamento com a rua Pedro de Toledo, nem imagina que há sessenta anos os sobrados ali construídos formavam a Vila dos Jornalistas, para onde o escritor e filósofo espírita Herculano Pires se mudou em 1948, pouco tempo depois de chegar do interior com a família. O sobrado de número 505 guarda hoje muito mais que recordações. Um acervo cuidadosamente organizado em forma de Fundação foi idealizado por amigo muito próximo do convívio familiar e criado com participação dos familiares: dentre eles Herculano Ferraz Pires, um dos quatro filhos do casal Maria Virgínia e José Herculano Pires. Herculaninho, como era chamado carinhosamente pela mãe, tem muita história para contar...
Herculano, como era a vida em família, nesses velhos tempos? Herculano: A família era muito grande. Logo que minha mãe se casou, a minha avó materna desencarnou. Meu avô e filhos foram morar conosco em Marília. Meu pai, apesar de ter nascido em Avaré, começou a vida em Cerqueira César, mas moraram também em Marília, onde meu pai foi trabalhar em um jornal que acabou adquirindo. Depois da Segunda Guerra, o jornal "foi para o espaço", e mudamos então para São Paulo. Não havia nenhuma restrição em se tomar conhecimento de outras filosofias. A abertura de meus pais era total. Uma vez apareceu em casa um pastor dizendo que iria abrir uma igreja, ali perto, na Vila Mariana. Minha mãe depois de servir um café, disse que a gente iria colaborar. Todos os domingos de manhã, eu, minhas duas irmãs e parte da vizinhança íamos à igreja participar. O pastor sempre aparecia em casa para tomar um café, e acabou se tornando grande amigo de meus pais. Mas seus pais já eram espíritas? Herculano: Sim. Quando jovem, meu pai chegou a ser coroinha na igreja católica. Jovem, se tornou teosofista. Depois, com 22 anos, um primo apresentou o Livro dos Espíritos. Ele conta que depois que o leu, não se afastou mais de Kardec. Achou que ali ele encontrava todas as verdades que estava procurando. O escritor Jorge Rizzini costumava dizer a meu pai que os espíritas deviam amar mais a doutrina. E realmente, Herculano considerava a doutrina a coisa mais importante, isso para todos nós. Você disse que na garagem deste sobrado, seus pais começaram a fazer reuniões. Quem chegou a vir ou mesmo as freqüentava? Herculano: Lembro do escritor Deolindo Amorim, o conhecido Jerônimo Mendonça, que paraplégico – andava sempre em uma perua Kombi – chegou a vir participar de algumas reuniões. Uma porção de gente passou a vir para as reuniões. Foi o início do Centro Espírita Cairbar Schutel. E sempre ao final, o pessoal subia e tinha o café e o bolo de minha mãe. Chico [Xavier] também chegou a participar, e tantas outras pessoas que não me lembro agora. Não existia um centro espírita organizado oficialmente, até o dia em que aconteceu uma coisa curiosa. Apareceu na caixa dos correios um envelope endereçado ao meu pai, que minha filha, Tatiana, pegou e entregou para o avô. Dentro uma carta havia um bilhete dizendo: "Eu sei que você está querendo fazer alguma coisa pelo Espiritismo. Aqui está o que precisa para um bom começo." Lá tinha uma boa quantia de dinheiro, o que fez com que meu pai providenciasse a organização jurídica do Centro Espírita Cairbar Schutel. Essa colaboração juntada com outras tornou possível a compra da sede do Centro.. Isso em 1979. Mas meu pai não chegou a participar de nenhuma reunião lá, porque logo desencarnou. Seu avô tinha um jornal no interior. Daí certamente o dom da escrita herdado pelo seu pai. Herculano: Meu pai sempre foi jornalista. Com 14 anos, já escrevia artigos para jornal. Concorria também a concursos de poesia. Quando tinha 17 anos, seu pai adoeceu, ficou sem condições de tocar o jornal. Ele o assumiu e transformou o jornal político em jornal literário. Fundou ainda a UAI (União Artística do Interior). Como Herculano começa a escrever sobre Espiritismo, na década de 50, na coluna do Diário de São Paulo ? Herculano: Meu pai trabalhava em um dos jornais do grupo do Diários Associados, o Diário de São Paulo, havia uma coluna espírita a cargo da Federação Espírita de São Paulo. Herminio Sacchetta, genro do Júlio Abreu Filho [escritor espírita], assumiu a direção de redação dos Diários Associados e pediu aos jornalistas Vandik de Freitas e ao Odilon Negrão e ao meu pai que ficassem responsáveis pela coluna espírita, para que ela fosse mantida. Os três então combinaram que se revezariam na redação, e assinariam com um único pseudônimo, Irmão Saulo. Mas quem acabou escrevendo mesmo foi só o meu pai. Ele tratava sempre de temas do cotidiano e os comentava na visão do Espiritismo e que o Correio Fraterno depois publicou em livros. Quando o Chico (Xavier) fez o programa Pinga-Fogo, o jornal passou a publicar semanalmente uma das mensagens psicografas por ele, enviada toda semana, para o meu pai, com uma carta tecendo comentários inclusive sobre a reunião. Meu pai preparava esse material, publicando uma abertura, a mensagem e um comentário sobre o extrato doutrinário. Essas correspondências são, a meu ver, umas das coleções mais importantes do acervo. Como surge a idéia de se criar a Fundação Maria Virgínia e José Herculano Pires? Ou melhor, uma pergunta antes para o Molina: como você chegou à família Pires? Que laços são esses, pelo menos nessa encarnação (risos). Molina: Eu trabalhava no Investbanco, na década de 70 e na época precisa de um profissional da área de processamento de dados. O Herculano (filho) foi indicado. Eu também era espírita e pelo nome reconheci seu parentesco com Herculano Pires. Naquele dia mesmo, por telefone conversei com D. Virgínia, que com seu jeito todo maternal me convidou para que fosse tomar um café. Conheci a família toda e nunca e mais me desliguei. Convivendo já certo tempo, vi que quando Herculano Pires se foi, havia muito material de acervo pela casa e entre os familiares. Dona Virgínia tinha muito cuidado com a preservação e sabia que precisava fazer alguma coisa para não se perder. Não foi fácil organizar o material. Foram feitas pelo menos três tentativas com pessoas diferentes para se catalogar o acervo, mas a solução veio quando pusemos justamente no Correio Fraterno um anúncio do tipo: "Precisamos de pessoa que entenda de catalogação para serviços no acervo de Herculano Pires". Uma moça de São Carlos-SP - Maristela Figueiredo Roriz - se prontificou a fazer o projeto e a treinar uma pessoa que pudesse fazer o trabalho. Maria Alice, a esposa do Herculaninho foi quem se prontificou a realizar o trabalho. Foram anos de catalogação. Ao todo cerca de 10 mil documentos, artigos, críticas, material didático, poesias e mais de dois mil livros de sua biblioteca particular. Herculano exerceu funções de crítico literário, repórter político e o acervo dá uma visão geral de sua obra, que não se limitou às atividades espíritas. Quando Dona Virgínia desencarnou, em 2001, foi o momento de se institucionalizar a Fundação. Leia mais na edição 424 (novembro / dezembro de 2008) da edição impressa do jornal Correio Fraterno). |