| Lançado o livro Pesquisas sobre o Espiritismo no Brasil |
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Estratégias da Mídia Jornalística a Serviço da Memória Espírita Izabel Regina Rodrigues Vitusso Correio Fraterno – Um Fragmento da História O jornal Correio Fraterno iniciou-se há 40 anos, criado pelo mesmo grupo que, quase há 50 anos, levantava a primeira instituição filantrópica da cidade de São Bernardo do Campo - o Lar da Criança Emmanuel. Não são apenas os quatro anos em que atuo como editora do jornal que me ligam a ele, mas o fato de estar envolvida em sua história desde a fundação, uma vez que meu pai (Raymundo Rodrigues Espelho) estava entre os fundadores dessas e de outras instituições antigas da cidade, o que nos propiciou desde cedo o convívio no meio espírita. Nesses 40 anos, o Correio Fraterno reuniu um grande material que sintetiza a história do movimento espírita, os genuínos pensamentos da época e tantos outros acontecimentos que ajudaram a consolidar a cultura espírita em São Paulo e no Brasil. Sem falar na edição de livros, pela editora que acabou sendo criada logo depois. São curiosos os fatos que marcaram a História, os desafios das organizações, o estilo da produção editorial, as infindáveis defesas dos expoentes espíritas a favor do Espiritismo. Tudo isso está registrado nas amareladas páginas do nosso acervo. Em minhas lembranças de infância, as pombinhas da logomarca do jornal têm lugar cativo. Eu ainda não sabia ler quando comecei a ajudar na expedição do jornal. Minha mãe fazia cola de farinha e ensinava os filhos a colar tiras de endereços, mimeografadas pelo meu pai, para expedir o jornal. Carro, quando se podia comprar, era no tamanho suficiente para caber toda a edição em uma viagem só aos Correios. Naquela época, eram poucos os veículos de comunicação espíritas. E o Correio chegou a circular com 15 mil exemplares mensais, por todo o Brasil e também no exterior, como uma tribuna aberta no movimento espírita, uma concepção, com o passar dos anos, levada ao pé da letra por alguns membros que coordenaram, por alguns anos o jornal, e o levaram por linhas editoriais polêmicas e muitas vezes divergentes de seus propósitos. Porém, como retratos fotográficos expressam uma fisionomia, o passado do movimento espírita expressa nossa trajetória humana. E relatos, lembranças, imagens se interligam numa teia histórica e geográfica, cuja significância cabe a nós, da pesquisa e da comunicação, explicitar. Para Entender Melhor o Presente Particularmente me despertei para a importância da recuperação da memória espírita por meio do convite feito pela espiritualidade, em forma de mensagem, há cerca de dez anos, quando participava do jornal Vida Espírita (Aliança Municipal Espírita) em Uberlândia-MG. Corina Novelino – espírito vinculado a Eurípedes Barsanulfo e ao trabalho da preservação da memória espírita – sugeria que se realizasse um trabalho de recuperação dos fatos dos primeiros profitentes da doutrina, dizendo se tratar de uma história que pertencia ao patrimônio da cidade e de extrema importância, para que, olhando o passado, os espíritas entendessem melhor a consistência atual dos acontecimentos. Sugeria também simplicidade na tarefa, sem a preocupação de gerar leitores em massa, mas enfatizando as lutas e as vitórias dos antigos profitentes sobre si mesmos. De tudo o que foi dito, uma das frases ditas por Corina Novelino particularmente se sobressaia: a valorização das lutas interiores daqueles pioneiros, e suas vitórias sobre si mesmos. Foi o que vi. Conheci pessoas e histórias que permaneceram em mim, como um referencial de conduta, um oásis interior, que visito assiduamente para cotejar os meus sentimentos. Tudo o que foi levantado (entrevistas, pesquisas em acervos municipais, jornais antigos) se transformou, em 2000, em um livro, o "Terra Fértil, semente lançada: a história do Espiritismo em Uberlândia", editado pela Aliança Municipal Espírita, com apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Uberlândia. Correio Fraterno – Iniciativas de Resgates Logo que voltei a morar em São Paulo, e assumi o projeto editorial do jornal Correio Fraterno, surgiram inúmeras ideias, para que o jornal continuasse a cumprir a sua função na divulgação espírita, mas atendendo às exigências atuais do público leitor.O Espiritismo está hoje num patamar de aceitação completamente diferente do que esteve décadas atrás. Mudou-se o discurso. Os fundamentos da doutrina, antes defendidos a ferro e fogo, hoje ganharam as telenovelas e passaram a ser manchetes das principais revistas em circulação. Modernizar o jornal e ao mesmo tempo fazer ecoar o conselho de Corina Novelino, sobre a importância do resgate da história, pautaram algumas iniciativas, dentre elas algumas citadas abaixo: "Baú de Memórias" Surgiu por sugestão do historiador e escritor Eduardo Monteiro, a ideia de se criar a coluna BAÚ DE MEMÓRIAS, que publica até hoje textos de pesquisas históricas, com fatos pitorescos, numa combinação de recursos e conceitos de vários campos do conhecimento que proporcionam instigantes descobertas. O atual desafio do BAÚ DE MEMÓRIAS é publicar histórias do Espiritismo regional e de lugares mais distantes, com peculiaridades pouco conhecidas por nós da região Sudeste. "Retrovisor" Outra iniciativa, desta vez com a ideia de se recuperar os próprios textos do acervo do jornal, foi a coluna RETROVISOR. Alguns dos desafios, fora a recuperação e seleção dos textos, foram as dimensões dos artigos: muito grandes para a proposta atual do jornal. Também a questão de se manter a originalidade e o respeito ao estilo do autor, em contraposição às características do jornalismo atual, com linguagem mais direta, fez com que repensássemos a responsabilidade na reedição deste material. O trabalho de recuperação dos textos continua e muitos deles já são publicados no site, onde há espaço pré-estabelecido para o Acervo Correio Fraterno. (www.correiofraterno.com.br) "Foi Assim" – Cada um Como Parte da História A ideia de se criar esta coluna FOI ASSIM... apareceu em um Encontro profissional sobre Marketing e Comunicação, quando o expositor salientou que tudo o que vem acompanhado de uma narrativa permanece por muito mais tempo na mente humana, valorizando a importância do papel das narrativas. E por que então não valorizarmos a história individual de cada um? Lembra que Corina falava sobre o valor das superações interiores? FOI ASSIM... veio daí: relatos autobiográficos de pessoas comuns, leitores, frequentadores da casa espírita, atuantes do movimento com ocorrências de vida que valem a pena ser conhecidas, iluminando os diversos temas do Espiritismo, propondo a troca de vivências e o crescimento multidirecional.A iniciativa é recente, mas já rendeu retornos interessantes que nos sugerem algumas interpretações: é muito comum, no meio espírita, se relacionar a produção de textos oficiais, para estudo e para doutrinação, mas não se valorizar produções de vivências particulares, como se estas não pudessem ser igualmente de cunho educativo. Embora pareça uma proposta singela, o FOI ASSIM... é um espaço que intensifica nossa sociabilidade humana, nossa inclinação ao outro, partilhando experiências e emoções, num exercício para a fraternidade universal. "Correio do Correio" – Relação com os Leitores Parte das cartas e e-mails que circulam entre nós e os leitores são publicadas na seção CORREIO DO CORREIO. Assim que sai cada edição, ocorre um fenômeno muito interessante: algumas reportagens que remetem ao passado têm sensibilizado os leitores mais idosos que participaram ativamente do movimento espírita. Estes se manifestam, por cartas e emails, e trazem novos dados com recordações valiosas, enriquecendo nosso conhecimento. O Correio tem reencaminhado essas correspondências, quando pertinentes, para as pessoas as quais são citadas nas lembranças, reacendendo, assim, a teia de contatos dos antigos trabalhadores do movimento. "50 Anos do Lar Emmanuel" – O Projeto Social O Correio Fraterno iniciou um projeto de resgate e preservação da memória do Lar da Criança Emmanuel, que perto de completar 50 anos, se prepara para dobrar o número de crianças, passando para 400 assistidas. A reunião de documentos, entrevistas e pesquisas em acervos levou a divulgarmos em pequenos flashs a história da instituição, valorizando o momento social e cultural e mesmo filosófico do passado. Tudo isso foi motivado principalmente pelo resgate de um arquivo de fotos de excelente qualidade, preservada por esses 50 anos.Um dos recursos de recuperação é a própria coluna instituída no jornal onde, são publicadas e contextualizadas historicamente fotos do antigo acervo. Comunicação e Pesquisa – Nossos Desafios No nosso entender, o trabalho de valorização de nossa história se enriquece quanto mais sinergia houver entre as áreas de pesquisas de memórias e os setores de comunicação, a fim de que se construam estratégias e melhores formas de expressão, destinadas ao público a que se quer atingir. A curiosidade e o vínculo com a realidade é o que move o leitor. Para quem escrevo? Como escrever para obter a atenção? Existem inúmeros recursos no domínio da comunicação que podem ser usados, como veremos no apêndice desse trabalho. Para Ficar Melhor – E o que Vem Depois? Todo meio de comunicação é por si só uma ferramenta dinâmica e muito mais poderá ser feito, quanto mais preparados nós nos colocarmos a serviço. Kardec dá um estímulo necessário: "a história da doutrina espírita, de alguma forma, é a do espírito humano. O estudo dessas fontes nos fornecerá uma mina inesgotável de observações, instrutivas e interessantes, sobre fatos gerais pouco conhecidos". (Allan Kardec, Revista Espírita, janeiro de 1858).É preciso, então, nos alinharmos para que o melhor trabalho seja feito, para que essas minas inesgotáveis de observações realmente cheguem e sensibilizem pessoas, em todos os lugares do mundo. APÊNDICE Mídia, Linguagem e Memória A palavra tanto mata quanto ressuscita Via de regra, nós que utilizamos a palavra como ferramenta de trabalho sabemos que pesquisa e comunicação são atividades interligadas e possuem múltiplos aspectos que exigem a nossa atenção. O comunicador que deseja profundidade em seu trabalho nunca abre mão de uma boa pesquisa. O pesquisador que anseia pela qualidade na divulgação de suas descobertas escolhe a melhor forma e ferramenta para disponibilizá-las ao mundo. Na questão da comunicação propriamente dita, existem recursos ao nosso favor, dentre eles um fundamental para todos nós que escrevemos e, claro, desejamos que nosso texto seja lido: ter em mente para quem escrevemos. É importante nos colocarmos sempre no lugar de nossos pretensos leitores (público espírita, não-espírita, jovens, iniciantes na doutrina, especialistas, generalistas), procurando entender seus anseios, supondo as suas potenciais buscas, considerando ainda o mundo em sua contemporaneidade. Parece bobagem lembrar de um aspecto tão óbvio, mas é muito comum, no calor das ideias, esquecermos por que mesmo escrevemos e para quem. Começar do começo Partindo desta primeira grande regra, as demais serão consequência: • O sonho de todo aquele que escreve é ser lido, até o final, de preferência. Se não pegarmos o leitor na abertura, não o pegamos mais. Informações devem ser concretas, enxutas, ágeis, importantes. O que se concebe bem se enuncia claramente e as palavras para dizê-lo chegam facilmente. Nicolas Boileau, poeta francês• Encadear as ideias. Se uma frase não levar à outra, o texto estará morto. E em cada parágrafo, há duas frases decisivas: a primeira e a última. • Suprimir o supérfluo e o redundante. O que pode ser dito em uma frase não deve ser dito em duas. Entre duas palavras, escolha sempre a mais simples, entre duas palavras simples, escolha a mais curta. Paul Valéry, poeta francês. É preciso descascar o texto como quem descasca uma fruta, ir buscar a semente. Escrever é principalmente cortar. Fernando Sabino, escritor brasileiro• Cautelas ao usar termos que generalizam: Ex: Todos adoraram a confraternização.• Evitar o uso do "que", e outros termos que empobrecem o texto, como os verbos ser, estar, mesmo em suas conjugações. Uma palavra posta fora do lugar estraga o pensamento mais bonito. Voltaire, escritor francês• Evitar palavras desgastadas ou pouco atuais: incansável trabalhador, amada doutrina, perda inconsolável, um gigante do Espiritismo; destra (no lugar de mão direita); olvidar (esquecer), aduzir (apresentar); lograr (conseguir); anuir (aceitar); empedernido (endurecido); urge (é necessário), verbos no imperativo (ex.: amemo-nos). Quem quiser escrever num estilo claro, deverá ter primeiro clareza na alma. Goethe, escritor alemão • Escrever com menos adjetivos e mais descrições, deixando para o leitor a exímia tarefa de tirar suas conclusões. No trabalho da divulgação espírita, penso que devemos persuadir menos, compartilhar mais. Escrever é um trabalho duro. Uma frase clara não sai por acidente– e poucas saem na primeira, na segunda ou mesmo na terceira tentativa. Lembre-se disso como consolo nos momentos de desespero. William Zinsser, escritor norte-americano• O bom dicionário é sempre a melhor companhia, em caso de dúvida. O novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa começa a valer a partir de 2009. • Ter a certeza de que quem escreve nunca é o melhor revisor para o texto. • Contextualizar fatos e personagens. Ampliar os horizontes, abrindo os leques de possibilidades para que o leitor se identifique com o texto, considerando, principalmente, as infinitas áreas do conhecimento humano. • Dismitificar personagens, espíritas ou não. Somos todos espíritos em evolução, passíveis de acertos e erros. (Entrevista com Bezerra de Menezes, publicada no Reformador, em 1892 e a obra Viagem Espírita em 1862 são textos que ajudam a conceber a ideia de expoentes do Espiritismo sem "santificação".• Considerar o valor da adaptação da linguagem à contemporaneidade, encurtando o espaço entre o passado e o presente, potencializando a acessibilidade dos leitores ao material de pesquisa e memória do Espiritismo. Talvez por tradição, obtida com a leitura das obras de Kardec e demais pioneiros do Espiritismo no português do século XIX, nós espíritas acabamos por prestigiar o uso de expressões que hoje são arcaísmos e, embora denotem cultura, prejudicam a compreensão e o interesse pela linguagem escrita. • Ajudar a romper o estigma de que Memória do Espiritismo é apenas o obituário dos pioneiros e que história é um passado que já morreu. Todo resgate precisa encontrar o apelo atual para fazer sentido a quem lê. A curiosidade e o vínculo com a realidade é o que move o leitor. Com a pena na mão, começo a compreender que a coisa tem que ser apresentada de modo a interessar ao leitor. Arthur Conan Doyle em Histórias de Sherlock Holmes O papel de quem edita Não há como negar a necessidade de a imprensa espírita se adequar às mudanças do comportamento social. O potencial leitor dos jornais, revistas e livros espíritas passou a ser qualquer pessoa, consumidora de informações. Isso exige contínuo aprimoramento editorial e adequação de nosso trabalho de divulgação aos novos tempos: produção visual gráfica, textos informativos e interpretativos livres de opiniões particulares (ficando estas reservadas a textos opinativos), apuro no encadeamento das ideias, menos doutrinação, na acepção dogmática do termo, e mais respeito ao livre pensar do leitor. Cabe ao editor de todo texto a responsabilidade de dar forma definitiva ao material, empregando recursos que atraiam o leitor, sugerindo reduções, inserções, concebendo legendas, chamadas, títulos que agucem a curiosidade. Imagens são tão importantes quanto o texto e todos os elementos acima descritos devem "conversar entre si". No New York Times, eu só leio as chamadas, os títulos e as legendas, e tenho a sensação de ter lido o jornal inteirinho. John Peter, editor do New York Times O papel de todos nós Possivelmente, já não se tenha mais em profusão grandes expoentes do movimento espírita, missionários no calibre dos que já passaram pela Terra. É provável que a Espiritualidade guarde para nós, trabalhadores anônimos, uma importante parcela do trabalho de se garimpar, lapidar e explicitar o que melhor represente o Espiritismo, em sua plenitude, seja transportado do passado ou do momento presente. Mas o que quer que seja, que obtenha sempre formas e elementos construtivos, ao passar pelo universo de nossas percepções. Referências bibliográficas DINES, Alberto. O papel do jornal: uma releitura, 5.ed. São Paulo: Summus, 1986. VILAS-BOAS, Sergio. Biografias e biógrafos, jornalismo sobre personagens. São Paulo: Summus, 2002._______. Perfis e como escrevê-los. São Paulo: Summus, 2003. Manual de Estilo Editora Abril. São Paulo: Nova Fronteira, 1991. MARTINS, Eduardo (org.). Manual de redação e estilo. São Paulo: O Estado de São Paulo, 1990. |










Trata-se de uma coletânea de textos sobre teses acadêmicas e também pesquisas livres envolvendo a temática espírita, apresentados no 4º Encontro Nacional da Liga dos Historiadores e Pesquisadores Espíritas- ENLIHPE. O livro foi editado em parceria com o CCDPE – Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa Espírita Eduardo Carvalho Monteiro.

