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Como administrar uma casa espírita? PDF Imprimir E-mail

O psicólogo do trabalho e doutor em Administração, Jáder Sampaio, realiza tese e faz uma radiografia da gestão administrativa das casas espíritas

 

Vontade: a alavanca fundamental para a ação! Conhecimento: o parceiro insubstituível da qualidade dos resultados. Foram conclusões como essas que levaram o psicólogo do trabalho e doutor em Administração, Jáder Sampaio, a enveredar-se, uma vez mais, pelos estudos. Professor universitário, ele queria entender as diferenças na administração de organizações que não visam lucro (nem prejuízo...).

Espírita de origem, desde menino se dedica à Associação Espírita Célia Xavier, em Belo Horizonte-MG, onde teve a oportunidade de estar em diversas frentes de trabalho e em cargos administrativos. Atualmente, participa da Liga de Historiadores e Pesquisadores Espíritas, traduzindo e publicando trabalhos espíritas em órgãos eletrônicos e da imprensa escrita. Estudos em pós-graduação em Filosofia, Ciência Política e Estatística complementam a folha de conhecimento de Jáder, que amistosamente atendeu ao nosso pedido para a entrevista.

Que assunto especificamente você abordou em sua tese? Ela mudou sua maneira de enxergar a doutrina? 

A tese, que defendi na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, discute o terceiro setor (organizações que não visam lucro) e aborda a motivação de voluntários, a cultura das instituições, as relações com a prefeitura e a influência do movimento e do pensamento espírita nas relações entre as pessoas. Este trabalho me possibilitou refletir mais profundamente sobre o pensamento de Allan Kardec e que eu entrasse em contato sistemático com alguns dos trabalhos da academia sobre o Espiritismo. Também me obrigou a pensar um tema que geralmente é tratado de forma marginal ou reprodutiva dentro do movimento: a gestão das organizações espíritas.

 

E o que os acadêmicos falam em seus estudos sobre o Espiritismo? 

Os antropólogos têm uma forma fascinante de pesquisar. Eles acompanham as pessoas, interagem e apreendem suas singularidades e o que há de comum no grupo social que estudam. Observaram aspectos pouco percebidos por nós, como o emprego do "plural de modéstia" – fazer uso da primeira pessoa do plural no lugar do singular, até para se referir a si mesmo – e coisas sobre as quais devemos refletir seriamente, como a divisão mental que fazemos das categorias de pessoas que passam na casa espírita: os freqüentadores, os trabalhadores e os assistidos. Salientam que, apesar de dizermos oficialmente que inexiste uma hierarquia nos centros espíritas, há uma "hierarquia de potencial", na qual as pessoas evitam falar de seus cargos e são escolhidas para o trabalho com base no "mérito, na moral individual e nas próprias circunstâncias do trabalho". O estudioso e professor Emerson Giumbelli observou que nós, apesar de pretendermos ser um "universo fechado" independente das esferas política e econômica, cada vez mais realizamos parcerias com órgãos de estado para viabilizar projetos, aproximando-nos das ações públicas. 

 

Qual a diferença mais visível entre as instituições espíritas e as organizações do terceiro setor de um modo geral?  

É difícil generalizar com segurança, porque do movimento espírita estudei em profundidade apenas uma casa, mas, de forma geral, as organizações espíritas gozam de certa respeitabilidade social, que é fruto da preocupação que se tem com a moralidade e a honestidade da gestão dos recursos. Porém, a mentalidade assistencialista, mais que a promocional, ainda é muito difundida nas organizações. Está em construção a idéia de cidadania – que considera as pessoas como cidadãos de direitos e deveres sociais e civis – refletida em nossas atividades, o que é mais próxima da concepção de Kardec, que nos vê a todos como espíritos, jornadeando e aprendendo juntos.

Há dificuldades em lidar com recursos financeiros, seja para obtê-los ou administrá-los. Há uma tendência a superutilizar o trabalho voluntário e evitar contratações por causa dos custos, o que muitas vezes compromete a qualidade e o alcance do trabalho. É comum fazer-se contratações com remuneração abaixo da média de mercado para não deixar de dirigir recursos à assistência, o que não é uma prática de gestão que motiva, retém e valoriza o empregado.

Há questões como a falta de consciência da imagem da instituição no ambiente social, o pouco conhecimento sobre os recursos diretos e indiretos que se pode obter pela  Utilidade Pública, o despreparo para se obter recursos financeiros em órgãos de fomento cultural e assistencial e o amadorismo para lidar com empresas. Outra dificuldade reside na articulação das organizações de forma geral, seja dentro do movimento espírita ou com outras organizações semelhantes (associações de creches, etc.). As organizações espíritas proporcionam espaços ricos de afetividade e de possibilidades de realização pessoal, o que atrai muita gente, mas ainda temos dificuldades de relacionamento. As lideranças espíritas são carismáticas, o que é bom por um lado, mas ruim por outro: os espíritas depositam em seus líderes o peso das soluções e conversam pouco e mal para obter soluções dos problemas, realizar mudanças, tomar decisões, etc.

  

Muitas casas receiam o uso de práticas empresariais em sua gestão. Você mesmo cita exemplos. Este receio tem fundamento?

O Centro Espírita realmente não é uma empresa. É uma comunidade de pessoas, com valores comuns, partilhados, que buscam espaços de realização, com o objetivo da vivência e divulgação da doutrina. Mas é uma organização, com responsabilidades fiscais, legais e sociais, que necessita de gestão. A questão é como administrarmos sem transformar o centro espírita em uma máquina de prestar serviços e distribuir produtos, mantendo seu caráter comunitário e seus valores. As tarefas podem ser mais bem administradas, no sentido de se ter clareza de fins e meios. O pagamento das despesas tem de ser efetuado com pontualidade, os acordos e convênios com os órgãos de Estado geridos, assim como o relacionamento com empresas e órgãos de fomento. E a comunidade espírita precisa ter consciência de que esta gestão existe e demanda sua compreensão e colaboração para poder ser mais efetiva e continuar sendo meio, e não se tornar um fim em si.

  

Dentre tantos aspectos levantados em sua pesquisa, qual mais lhe impressionou? Por que existe tanta dificuldade em se levantar os números representativos da assistência e promoção social espírita no Brasil?

O que me impressiona muito é a pouca percepção das organizações sobre o que acontece ao seu redor e em torno de sua própria história. Um trabalho é criado com uma finalidade e estabelecem-se os meios, por exemplo, fazer campanha do quilo para auxiliar na montagem de cestas de alimentos e integrar mais os membros do Centro Espírita. Passa-se o tempo, as pessoas esquecem-se por que o trabalho foi criado e com que objetivos e continuam fazendo da mesma forma, mesmo que a comunidade atendida não necessite mais de alimentos e que os participantes não interajam mais entre si, encontrando-se apenas na hora da tarefa.

A questão da avaliação das atividades está relacionada à história dos centros espíritas, sendo comuns os grupos se dedicarem "no limite das forças" e não haver qualquer demanda de avaliação. À medida que se estabeleçam objetivos para serem atingidos e se crie uma cultura de planejamento, a avaliação passa a ser mais valorizada. Mas isto deve ser feito sem que se perca o caráter comunitário, que é uma das grandes forças do movimento espírita. A falta de metas e de avaliação costuma ser justificada com base em uma interpretação, a meu ver, distorcida, da passagem evangélica "não saiba a vossa mão esquerda...". Com esta expressão, Jesus condena o orgulho pessoal, a vaidade de se crer caridoso, mas não a reflexão sobre a eficácia das iniciativas coletivas.

 

Quais seriam suas sugestões para se melhorar esse quadro?

Existe uma instituição sem fins lucrativos de São Paulo onde o conselho diretor separou um grupo de pessoas vinculadas à casa para pensar e empreender ações para a obtenção de recursos para a instituição, dimensionando as despesas a partir dos recursos. É uma idéia que exercita o grupo. Outra sugestão pode ser a promoção de cursos que ensinem os espíritas a fazerem projetos sociais. Poderíamos promover encontros temáticos com a tônica, por exemplo, no repasse de experiências (bem e mal sucedidas), uma espécie de congressos de estudos de casos.

Os membros de uma equipe precisam ser capazes de explicitar por que um trabalho foi criado, com qual finalidade e que meios foram inicialmente pensados para se chegar lá. Aqui vejo uma das finalidades dos estudos de História do Espiritismo, não uma história de heróis e vilões, de elogios e silêncios, mas uma história que explicite quem fez, o que fez, para que fez e o que causou como reflexo nas casas espíritas.

As lideranças espíritas podem desenvolver uma consciência maior de trabalho em equipe e trazer para si a responsabilidade de atrair novos voluntários, desenvolver seus conhecimentos, habilidades, estabelecer um laço de intimidade entre os membros, preparar-se para lidar com os conflitos que naturalmente surgem nos grupos e aprender a respeitar as diferenças, identificar e valorizar os diferentes talentos e interesses das pessoas que as procuram.

É preciso refletir bem sobre os ônus de se ter casas espíritas enormes, com circulação semanal de milhares de pessoas que não se conhecem, não se cumprimentam, não se visitam.

  

Quais funções, numa instituição assistencial, você considera mais adequadas aos voluntários?

As funções mais adequadas, me ocorreu, seriam as passíveis de ser realizadas uma vez por semana e que podem sofrer algum tipo de interrupção sem prejuízo da continuidade do trabalho. Ocorreu-me também que quando as atividades são de responsabilidade de uma equipe, cujos membros interagem, o voluntariado se estabelece melhor. Mas não é regra geral.

No Centro que freqüento, por exemplo, durante anos se tentou efetivar uma biblioteca de empréstimo domiciliar através de trabalho voluntário. Enquanto esteve em mãos de voluntários nunca funcionou a contento. Uma vez contratada uma funcionária e instalado um software para controle dos empréstimos, circularam mais de duas mil obras em um semestre. Entretanto, se precisarmos fazer campanhas periódicas para manter o acervo da biblioteca atualizado, uma equipe de voluntários comprometida e focada no resultado e instruída para captação correta, levanta recursos, mobiliza a comunidade presta contas do que realizou. Essa seria a melhor opção.

Uma grande exceção a esta regra é a direção dos centros espíritas. Por lei, ela deve ser realizada por pessoas não remuneradas, e penso que deve continuar sendo assim, sendo que se pode pensar em um profissional remunerado (sem as atribuições de decisão e legislação, próprias de um diretor, mas apenas de execução) nas casas em que os compromissos e as demandas, assim como o número de contratados for muito grande.

  

Quais os pontos positivos e os negativos de uma instituição abrir unidades de assistência além da sede principal?

A creche que eu estudei tinha esta característica. O que observei de positivo eram as instalações, projetadas para sua atividade-fim., melhores que as da pré-escola em que minhas filhas estudaram. A proximidade à comunidade de baixo poder aquisitivo era outro ponto positivo, mas com o passar dos anos, o bairro foi mudando. O que observei de negativo é que a unidade de assistência não foi desenhada para se tornar uma unidade autônoma. Passados vinte anos, a esmagadora maioria dos trabalhadores e dos recursos da unidade continuava sendo do centro espírita que deu origem à casa. Não se conseguiu envolver com sucesso a própria comunidade "assistida" no projeto, o que, no meu entendimento, é uma limitação.

 

No geral, o que as instituições têm feito para levantar fundos para as despesas e para a assistência social?

 

É difícil falar com segurança, mas no geral são "universos fechados" que levantam recursos com quadros de sócios e promoção de eventos. Algumas instituições levantam recursos com venda de livros (outras seguem o "conselho do Chico" e usam este recurso apenas para manter a livraria) e cada vez mais elas fazem parcerias, geralmente convênios com prefeituras e outros órgãos do poder público. Alguns centros espíritas recebem doações de empresas e de campanhas da sociedade civil em geral. Outros recebem recursos das chamadas grantmakers – instituições sem fins lucrativos que fomentam projetos. Poucas casas se servem dos incentivos e imunidades que lhes facultariam as leis, até aquelas que já foram credenciadas como utilidade pública federal e que poderiam receber doações de empresas que declaram imposto de renda em regime de lucro real. Não conheço centro espírita que tenha parceria com entidades internacionais de fomento de ações de promoção social.

 

O que diferencia as casas antigas e as que são fundadas hoje?

 

A diferença é pequena, apenas de porte, raramente de projeto. O movimento espírita brasileiro tem uma identidade muito marcante, o que significa que um centro repete, reproduz as atividades que os outros centros fazem (e as que faziam há cinqüenta anos) e refletimos pouco sobre as necessidades concretas da comunidade espírita que freqüenta a nossa casa. Apesar dessa visão um pouco pessimista, acredito no potencial das casas espíritas para dialogar e criar o novo, para absorver e se recriar nos novos espaços de comunicação, para empreender parcerias adultas, para produzir conhecimento de qualidade. Acredito nos meios de comunicação espíritas como veículo de reflexão e, por conseqüência, de transformação para melhor. Os centros espíritas são uma importante frente humanizadora e espiritualizante em uma sociedade que aos poucos se deixa levar por um materialismo individualista, imediatista e pelo consumismo. Kardec sabia disso, precisamos recordar.

 

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