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Há 139 anos nascia Santos Dumont PDF Imprimir E-mail
Escrito por Aristides Coelho Neto   

santosdumontEm flagrante e crescente desequilíbrio físico e psíquico, Alberto Santos Dumont sairia da França em 1931 rumo ao Brasil, para cercar-se das atenções de familiares. Alguns diriam que obteve melhoras no estado depressivo.

Em 9 de julho de 1932, eclodia a revolução constitucionalista em São Paulo. Santos Dumont entusiasmava-se com o movimento e a idéia de ver restabelecida a normalidade democrática. Na manhã de 23 de julho de 1932, Alberto estava na praia do Guarujá. Conta-se que nesse dia ajuda um menino a resolver problemas para empinar um colorido papagaio de papel, ao corrigir alguns detalhes construtivos. Ao ver a pipa ganhar as alturas, o menino, entusiasmado, bate palmas, enquanto Dumont sorri. Mas quem contemplasse o céu naquela hora, veria em poucos instantes surgir uma esquadrilha. Aviões prestes a bombardear um cruzador paulista ali perto. Seu invento servia para que brasileiros matassem brasileiros. Uma máquina que ele criara com tanta dedicação aperfeiçoava-se para espalhar a destruição e a morte. Nessa mesma noite, Santos Dumont se suicida.

Encerra-se a existência na Terra do homem introspectivo, solitário, complexado pela aparência física, neurastênico, angustiado, acabrunhado com a disfunção sexual. Fizera seu último vôo em 1909. E empreende a partir de agora um novo vôo sombrio e doloroso, em função do ato tresloucado do suicídio.

O que se passa com Dumont na vida espiritual, depois do ato impensado de tamanha magnitude, está no livro Ícaro redimido (Ed. Inede), de autoria do espírito Adamastor, um médico que viveu na França. A obra é psicografada pelo também médico Gilson Freire. Há quem só aceite obras pela mediunidade de Chico ou Divaldo. No entanto,  é pela razão e bom senso que devemos afiançar a qualidade e a fidedignidade de um trabalho e do que nos vem por intermédio de qualquer médium. Kardec assim fez e recomendou. E foi assim que avaliei o livro mencionado. Não bastou Gilson Freire dizer a mim, com sua inconteste humildade, que é "quase impossível fazer qualquer trabalho impecável, em decorrência não só da ignorância que ainda viceja em nossa alma como das dificuldades do nosso idioma". E dizer ainda que "as idéias inéditas que o livro contém não são verdades absolutas e inquestionáveis". Todos sabemos dos problemas de filtragem mediúnica que permeiam as obras ditadas pelos espíritos. E todos sabemos que os espíritos são gente como a gente, num mesmo processo de crescimento evolutivo. Mas me arvoro a dizer que em Ícaro Redimido, pelos conhecimentos que o médium demonstra ter – na qualidade de espírita dedicado, estudioso, culto, e ainda médico –, o autor só deve ter enriquecido os relatos de Adamastor.

Recomendo a leitura desta obra, por nos apresentar uma nova perspectiva do que foi a existência de Santos Dumont, com seus problemas, limitações e atitudes de arrojo. Sugiro também porque a obra traz de forma muito didática todo o encadeamento das vidas pregressas de Alberto – na condição de Zennon (O senhor dos canhões) e Bartolomeu Lourenço de Gusmão (O padre voador e dos Inventos) –, determinantes obviamente do drama que viveu o nosso herói. Na questão do atentado contra a própria vida, aparentemente com raízes na depressão, fica evidenciado que nenhuma doença justifica qualquer ato impensado, já que nossos atos equivocados é que nos levam a adoecer. A obra põe o leitor em contato com um verdadeiro tratado sobre transtornos depressivos e sua conexão com o egoísmo e a arrogância.

A leitura de Ícaro Redimido desfaz alguns mitos. Teria sido realmente Santos Dumont o detentor dos méritos da invenção do avião? Ou tudo foi fruto de um intenso trabalho no mundo espiritual, que exigiu colaboradores em várias partes do mundo? E teria sido realmente um pacifista que se surpreendeu com os desvios na utilização do avião? Que o leitor se prepare para uma viagem fecunda sobre os temas da melhoria moral, da necessidade de valorização da vida e das oportunidades do caminho, na escalada rumo a Jesus e ao Pai Criador.

A vida de Santos Dumont assim relatada, sob uma nova ótica, traz conceitos altamente esclarecedores sobre a autodestruição. E sobre a ovoidização, que Santos Dumont estaria perto de experimentar por conseqüência de seu auto-aniquilamento. A narração nos põe ainda em contato com os bastidores horripilantes da Segunda Grande Guerra. E apavora o leitor tabagista, ao detalhar a chamada Câmara dos Cianóides, no mundo espiritual. Esmiúça quanto às raízes de amizades aparentemente inexplicáveis, e quanto ao entrelaçamento de destinos de almas afins, exaltando sempre como funciona a Sabedoria Divina nesse processo intrincado – ou simples?, já que nós é que complicamos? – da nossa existência.

Em meio a tantos ensinamentos importantíssimos, valeria a pena dizer o que mais particularmente me impressionou nessa obra de peso: o fato de que perdão e trabalho são elementos importantíssimos e indispensáveis em qualquer processo de regeneração. E também o detalhe de que todo socorro por parte da Providência Divina chega no tempo devido. Todos os protagonistas na história de Santos Dumont eram criaturas falíveis. Até mesmo nos relatos já na dimensão espiritual, tanto os benfeitores quanto os assistidos eram pessoas passíveis de erros e enganos.

Fica mais luzente ainda que queixas e lamentações diante de nossos erros do passado são sempre improfícuas. Arrependimentos pura e simplesmente desprovidos de ação reparadora são inócuos. Cabe a nós olhar o passado, reconhecer os erros, e aprender com eles. E o mais importante – caminhar sempre, sem temor, na direção da Luz.

Aristides Coelho Neto

Articulista espírita, escritor, arquiteto e professor