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Espiritismo para americanos Um desafio para brasileiros PDF Imprimir E-mail
Escrito por Eliana Haddad   

04-05 - 0 fabbriUmberto Fabbri, 56 anos, tem se dedicado à divulgação do espiritismo com bastante entusiasmo nos Estados Unidos. Orador internacional, com diversos trabalhos como expositor da doutrina na Federação Espírita de São Paulo, lançou recentemente seu primeiro livro – Cisco Cândido Xavier – com histórias da convivência com o médium mineiro, colhidas desde quando jovem passou a frequentemente visitar o Grupo Espírita da Prece, em Uberaba.


Executivo da área de marketing, com atividades profissionais no Brasil e Estados Unidos, Umberto se engajou no movimento espírita no exterior, participando de atividades em vários centros, principalmente na região norte da Flórida.


Em entrevista exclusiva ao Correio Fraterno, Umberto aborda os desafios dos brasileiros para levar as ideias espíritas para os americanos. Vale a pena acompanhar esse bate-papo, por que não é mesmo por acaso que os brasileiros estão tão presentes, consumindo e visitando as terras de Tio Sam.


Como é a divulgação do Espiritismo nos Estados Unidos?


A divulgação é tão carente quanto no Brasil. Se no Brasil, as pessoas reclamam, nos Estados Unidos ela ainda é mais complicada, embora algumas coisas facilitem a vida por aqui, como, por exemplo, o acesso à tecnologia com custo muito baixo. Assim, a grande maioria dos centros faz a transmissão da palestra ao vivo pela internet e ao mesmo tempo grava e a disponibiliza em seus sites. Alguns também colocam à venda para aferirem alguma receita para o centro. Há também uma feira de livro anual em Miami. Mas as dificuldades ainda são grandes, porque a doutrina não tem penetração entre os americanos. Espiritismo aqui sempre foi feito por latinos e brasileiros para latinos e brasileiros. Também não adianta levar uma doutrina para o Brasil, se ela estiver sendo falada, por exemplo, em russo.


E, na atualidade, há alguma mudança mais perceptível?


Sim. Alguns centros, como o de Boston, por exemplo, decidiram começar a divulgar o espiritismo para americanos, colocando palestras somente em inglês. Outros já estão fazendo palestras com tradução simultânea, onde na média comparecem de 50 a 80 pessoas. Nos maiores centros chegam a comparecer 120, 150 pessoas, uma boa parte já formada por trabalhadores espíritas. Mais ou menos 30 e 70 % respectivamente, entre trabalhadores e frequentadores. Mas a questão da tradução tem sido uma decisão importante. Você começa a atingir os brasileiros casados com americanos e com filhos alfabetizados nos Estados Unidos que falam inglês e não têm pleno domínio de português. No KSFF - Kardecian Spiritist Society of Florida, por exemplo, onde há tradução simultânea, já recebemos um público formado por casais americanos/brasileiros que podem assistir às palestras, entendendo com maior facilidade, cada qual no seu idioma, o que se está falando. No caso de Boston, todas as atividades são em inglês, apesar da maioria dos frequentadores serem brasileiros.


Quais trabalhos são realizados nos centros, além das palestras?


Dependendo do centro, há todos. Tanto voltados para área da assistência espiritual como da assistência social. A diretriz é da FEB e os cursos são dados em português, porque os interessados são brasileiros. Mas há também centros onde se utiliza o espanhol.


Como são feitos os trabalhos de desobsessão? Os espíritos que se manifestam são culturalmente ligados a qual país?


(Risos) Já estava esperando esta pergunta. Algumas experiências são na língua nativa do indivíduo, embora a manifestação do pensamento descarte a necessidade da linguagem, mas pode acontecer... A comunicação através do pensamento permite que o médium a transmita em português e o doutrinador oriente em português; e também há o caso que o médium fala em inglês e o doutrinador orienta em inglês. Na grande maioria, todos são brasileiros. Ainda não tive a oportunidade de conhecer um grupo de trabalho que tenha um médium americano. Mas já começa a haver necessidade de trabalhos que não estejam limitados aos brasileiros. Há um grupo próximo, criado há um ano e meio, que tem trabalho mediúnico, passe, palestra na língua nativa, além do português.


04-05 - bezerra miami 4A assistência social realizada pelos centros nos Estados Unidos é bastante diferenciada. Fale um pouco sobre isso.


Os centros fazem um trabalho de cadastramento de pessoas necessitadas e todo mês elas podem fazer uma compra. O Bezerra de Menezes – o centro mais antigo da Flórida, com 26 anos –, tem um programa chamado Food Pantry. Trata-se de um supermercado dentro do centro, amparado legalmente pelo governo federal, para onde mensalmente as empresas levam seus produtos que estão relativamente próximos da data do vencimento. Para a empresa é doação, abatida no Imposto de Renda. Um relatório com dados do cadastro das pessoas é enviado com detalhes para o governo, dizendo quem são, o que fazem, número de familiares, etc. Normalmente estão desempregadas passando necessidades. A compra no centro é simbólica, naturalmente. Ninguém paga nada. O Bezerra atende pouco mais de 70 famílias. Demanda existe, porque o desemprego aqui continua bastante acentuado, em torno de 7%. Sem contar os imigrantes ilegais, que não estão inseridos nestas taxas, obviamente.


Você acha que isso também tem levado os americanos a procurarem algo mais, chegando às casas espíritas?


Na realidade não vejo grandes diferenças na situação entre Estados Unidos e Brasil. A dor é a mesma em qualquer lugar. Trabalho em casas espíritas em uma região em que a pessoas são muito religiosas, voltadas para o catolicismo e protestantismo...O ponto crucial é que chega um momento em que há buscas por respostas para fatos específicos da vida. Surge também uma nova busca para o público americano por um esclarecimento maior da vida. E, embora o Evangelho esteja em primeiro lugar, não havendo como descartar a parte filosófica e religiosa do espiritismo, percebo que a parte científica da doutrina pode tocá-los mais de perto.


Você diz no sentido da ciência materialista ou da busca essencial do espírito, tendo a doutrina como uma nova ciência?


No sentido de uma boa junção do que acredito aconteça num futuro breve. Teremos as evidências através de uma nova ciência que vai fazer todo o sentido em relação à questão do espírito, do perispírito e coisas do gênero. O ponto principal é que há, sim, um processo em andamento. Existe um trabalho muito forte feito no passado por alguns cientistas americanos, mas até bem pouco tempo não se encontrava em revistas americanas uma matéria de capa, como o caso recente na Newsweek de outubro do ano passado, com um depoimento gigantesco de um neurocirurgião mostrando que alguém responde a estímulos e compreende com o cérebro completamente paralisado. Isso é sair do lugar-comum. Aceitar esse conhecimento será uma questão de tempo. O espiritismo não é ciência como a ciência tradicionalista, a positivista, que tem seus próprios dogmas. Quando ela não explica, explicado está. É o absurdo dos absurdos. Foge-se da dogmatização religiosa, porque para a ciência tudo o que ela não domina passa a ser ocultismo, e acaba-se caindo no dogmatismo científico. Essa postura, claro, não é só dos americanos, mas há uma influência muito grande dela sobre eles. A psiquiatria do próprio Freud está dentro deste contexto, quando seu discípulo Jung foi para o outro caminho, o reencarnacionista. Não dá para ignorar tudo isso, dentro da história do conhecimento humano.


Essa postura mais dogmática faz com que o americano seja mais cético, desconfiado?


Ele não é cético, nem frio, mas muito acolhedor. É muito prático e talvez por isso sua religiosidade esteja tão fechada ainda. Mas existe a busca. Tanto é que as novidades acabam tendo adeptos até demais por aqui, como a teoria das crianças índigo e cristal. E, quando as criaturas começam a querer algo além, os oportunistas aproveitam-se. Por isso não podemos esmorecer. Há um trabalho a realizar.


04-05 - bss 1Depois de o espiritismo ter se evidenciado nos Estados Unidos com as Irmãs Fox, os espíritos batedores, etc., por que não se expandiu imediatamente por aí?


Havia uma sociedade extremamente fechada em suas bases – catolicismo ou protestantismo. A questão fundamental é que paradigmas estão sendo alterados e o povo americano se abrindo mais para as questões do espírito. E, de uma maneira surpreendente, muitas vezes num mix entre ciência positivista e espiritualidade, despertando uma nova versão de ciência através desses pioneiros que têm coragem de admitir algo além da matéria, como no caso da revista, que garante ter feito uma viagem fora do corpo.


Você acredita que, em função desse trabalho na divulgação do espiritismo, os brasileiros passem a ser mais respeitados nos Estados Unidos?


Penso que estejamos, sim, fazendo a diferença. Inclusive na economia dos Estados Unidos, porque consumimos muito por aqui. Talvez esse movimento de 'invasão' dos brasileiros não seja espiritualmente tão inocente. São eles os divulgadores do espiritismo para o povo americano. Nada realmente acontece por acaso. Os Estados Unidos vivem um momento importante, com muitos paradigmas sendo quebrados. Negros ainda estigmatizados em alguns locais e um presidente negro que foi reeleito, por exemplo. Antes, eram eles e os outros. Agora, com a globalização, estão vendo que apenas fazem parte, como os outros. O desafio é a divulgação do cristianismo redivivo, o que muitos confundem com o proselitismo, mas Jesus disse que não deveríamos colocar a luz debaixo do alqueire nem enterrar os talentos. Devemos aproveitar todos os instrumentos para isso. Não sei se o espiritismo vai entrar nos estados americanos. O que importa é essas ideias sejam divulgadas. Elas são de Jesus, portanto universais. O nome pouco importa.

 

Por Eliana Haddad

 

Publicado no Jornal Correio Fraterno - Edição 449 Janeiro / Fevereiro 2013

 

 

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