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Home Nossas Seções Reflexão A sociedade somos nós
A sociedade somos nós PDF Imprimir E-mail
Escrito por Richard Simonetti   

moradores-rua"É evidente que, se não fossem os preconceitos sociais, pelos quais se deixa o homem dominar, ele sempre acharia um trabalho qualquer, que lhe proporcionasse meio de viver, embora se deslocando da sua posição. Mas, entre os que não têm preconceitos ou os põem de lado, não há pessoas que se veem na impossibilidade de prover às suas necessidades, em consequência de moléstias ou outras causas independentes da vontade delas?
Numa sociedade organizada segundo a lei do Cristo, ninguém deve morrer de fome."

Questão n° 930, de O Livro dos espíritos

 

Há indivíduos indolentes e indisciplinados que vivem em situação difícil por sua própria culpa. Mas há, também, os que experimentam amargas privações decorrentes de circunstâncias alheias à sua vontade:
O doente sem recursos, o velho sem abrigo, a criança abandonada, operário desempregado, o homem marginalizado em virtude problemas de comportamento.
Imagina-se que providências a respeito do assunto são de alçada exclusiva do Governo, chamado ao atendimento da população carente e à erradicação da miséria.
No entanto, a sociedade somos nós, cidadãos que a compomos. O Governo é apenas uma representação. Não podemos, portanto, debitar-lhe inteiramente a solução desse problema, mesmo porque a cristianização da sociedade não depende de iniciativas dos poderes constituídos. Fraternidade, solidariedade, misericórdia, caridade, compaixão, não são passíveis de imposição por decretos.
Consideremos, ainda, que o Governo não é onis¬ciente, onipresente, onipotente. Ele não sabe tudo, não vê tudo, não pode tudo. Mas a sociedade, como um todo, formada pelos cidadãos que a compõem, pode exercitar essas faculdades, na medida em que, diante das misérias humanas, sempre haverá alguém capaz de fazer algo, ao passo que a interferência de prepostos governamentais vai depender de os encontrarmos, de estarem dispostos a fazê-lo e desfrutarem de disponibilidades para tanto.
No livro Atravessando a rua, comentamos a experiência de um homem que encontrou um doente ao desabrigo, em noite muito fria, e suas tentativas para conduzi-lo ao albergue, a esbarrarem na falta de uma viatura da própria instituição e de órgãos policiais e hospitalares. Reclamando pela falta de colaboração, deu o assunto por encerrado. No dia seguinte, o doente foi encontrado sem vida. Morreu de frio.
De quem foi a culpa? Do Governo, sem dúvida. O albergue, o hospital, a polícia, que direta ou indiretamente o representam, falharam na medida em que não se adequaram ao desempenho de suas funções.
Mas há um cúmplice: o samaritano vacilante que, naquele exato momento em que topou o doente, era o melhor representante da sociedade para socorrê-lo. Bastava usar seu automóvel ou providenciar um táxi, já que uma vida humana vale bem mais que embaraços ou despesas decorrentes de semelhante iniciativa.
O recalcitrante socorrista, bem como dezenas de pessoas que passaram por ali, viram o problema e preferiram ignorá-lo, comportaram-se como membros de uma sociedade que se diz cristã, mas está longe de viver os ensinamentos do Cristo. Evidentemente não se improvisa o cristão. Ainda assim, não estamos impedidos de ensaiar fraternidade. Se ainda não conseguimos abrir a porta de nossa casa ao necessitado, abramos-lhe as portas da boa-vontade, dispostos a fazer algo em seu benefício, sem debitar a iniciativa ao Governo, porquanto, diante dos infortúnios humanos, naquele exato momento em que os contemplamos, somos os representantes melhor credenciados da sociedade para ajudar. Estamos ali.
Há outro aspecto importante: o Governo representa não apenas a sociedade, mas também suas tendências. Ele se vincula à história da nação, suas características, sua maneira de ser. A Alemanha de Adolfo Hitler foi a materialização da belicosidade e das pretensões de hegemonia racial de boa parte do povo alemão.
Seria, portanto, inocência, pretender que o indivíduo alçado ao poder se transforme, por obra e graça do Espírito Santo, num campeão do Evangelho, apóstolo do Bem, empolgado pela promoção humana, trabalhando de sol a sol com disciplina, prudência, bom senso, honestidade e, sobretudo, amor pelo semelhante.
Poderá surgir, de quando em vez, um sábio ou um santo na direção de um povo, mas ele próprio terá de lutar contra terríveis limitações e dificuldades, porquanto será um elemento estranho numa coletividade alheia aos seus ideais.
A sociedade legitimamente cristã deve ser construída de baixo para cima. Quando a maioria da população for cristianizada teremos governos capazes de vivenciar plenamente os ensinamentos de Jesus. Não há fórmulas mágicas para isso. É apenas uma questão de trabalho, muito trabalho no esforço do Bem.
Diz o Espírito Humberto de Campos, em psicografia de Francisco Cândido Xavier: As missões legitimamente salvacionistas vêm à Terra vestidas de macacão.
O verdadeiro missionário é aquele que serve sempre, com inabalável disposição, empenhando a própria existência no esforço em favor do semelhante.
Isso explica porque o espírita consciente fatalmente se vincula a obras de assistência e promoção humanas ─ creches, berçários, escolas, abrigos, lares da infância e da velhice, hospitais ─ formando uma mentalidade de participação e de iniciativas em favor dos carentes de todos os matizes. Ele sabe que não há outro caminho.

 

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