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Home Nossas Seções Entrevistas A Bienal e a evolução da difusão espírita
A Bienal e a evolução da difusão espírita PDF Imprimir E-mail
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Há 101 anos, Cairbar Schutel lançava, em Matão, o jornal Espírita O Clarim, como forma de resistência à oposição preconceituosa da igreja e da sociedade. Em condições muito diferentes do passado, as publicações dessa editora ocuparam espaço na divulgação na Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, junto a milhares de outras publicações, dentre elas de editoras católicas, protestantes, evangélicas, esotéricas. Aparecido Belvedere, há muitos anos editor de O Clarim e da revista RIE, e que reúne experiência como poucos no trabalho da divulgação, foi presença ativa no evento, no qual nos concedeu esta entrevista.

Izabel Vitusso

Há quanto tempo o senhor desenvolve atividade no Clarim?

Completou 31 anos, iniciei em 1975. Graças a Deus vamos colaborando. Passa-se por vários problemas, normal no nosso meio, pois faz parte do ser humano, mas com o apoio do plano espiritual, a gente chega lá.

 

O senhor nasceu em família espírita?

Não. Meu nome é Aparecido, o que já é uma promessa. Fui batizado em igreja católica, a madrinha, segundo o costume da época, é Nossa Senhora Aparecida; fui coroinha, ajudei a rezar missa. E com 16 anos de idade, comecei a fazer perguntas, cujas respostas não me satisfaziam. Fiquei um bom tempo ateu e à toa. Fui educado a ser preconceituoso contra o Espiritismo. Mas aí veio a dor, os problemas e não teve jeito, acabei chegando nele.

 

O senhor costuma participar das bienais e outros eventos como esse?

Não digo todos, mas participei das bienais de São Paulo, no ano passado no Rio, o que dá para nós uma grande oportunidade da divulgação em massa da Doutrina Espírita e, cada vez mais, os resultados vão se consolidando, de modo geral, em médio e longo prazo. O que tem de gente que passa nos stands espíritas pedindo informação é impressionante. 

 

Esse talvez seja o benefício maior da bienal?

É, porque muitos são apenas simpatizantes do Espiritismo e impulsionados talvez pela  grande mídia, novelas, gostariam de ler alguma coisa espírita. Em eventos como estes, estão à vontade para comprar outros livros e espíritas também. Eles vêm, perguntam querem saber, e a gente vai passando as informações.

 

Esse é o lado da relação com o público, mas e a relação dos espíritas com os espíritas, também é beneficiada com eventos como esse?

Bastante, a gente vai se conhecendo cada vez mais, acertando certos probleminhas, divergências no modo de pensar entre uma editora e outra, o que sempre tem e terá, acredito por um bom tempo. E na troca de idéias, notamos que ao longo do tempo, muita coisa foi se modificando em direção à codificação de Kardec. É um trabalho homeopático, de esclarecimento, haja vista que a maior parte dos espíritas veio do catolicismo. Então muitos trouxeram tendências que estão há séculos dentro do nosso psiquismo. Aos poucos vamos trabalhando em cima disso. E nós temos uma escola muito importante, a escola do Cairbar Schutel, que desde o início separou as coisas. O que é Espiritismo o que não é Espiritismo.

 

Isso reflete na divulgação da doutrina através dos livros também?

Perfeitamente. Há muita coisa nas edições que não está bem dentro do contexto de Kardec, e aos poucos, trocando idéias, isso vai se modificando. Todo esse relacionamento traz um proveito muito grande para os editores espíritas, para se traçar novos rumos em direção aos postulados espíritas que devem ser divulgados. O amadurecimento do ser humano vai proporcionando melhor esclarecimento. E a doutrina espírita tem as respostas, esclarece, mas nós é que relutamos para aceitar a realidade.

 

Como o senhor vê a participação do movimento espírita num evento gigantesco como esse, juntamente com as mais diversas vertentes religiosas?

 

O preconceito está diminuindo, principalmente por causa da grande mídia, das novelas, dos temas que estão sendo abordados em livros por editoras não-espíritas: reencarnação, continuidade da vida, EQM – experiência de quase morte – que são assuntos que fazem parte do arcabouço espírita. A gente nota que mudou muito, desde as primeiras divulgações do Espiritismo. Quando Cairbar fundou o Centro Espírita Amantes da Pobreza – hoje Centro Espírita O Clarim, em 1905, 30 dias depois ele instituiu o jornal O Clarim, porque o clero atacou barbaramente, falando coisas que não eram o Espiritismo. Ele redigiu o primeiro jornal, que não foi impresso na cidade de Matão, mas em Taubaté, numa gráfica dos anarquistas, porque ninguém queria editar nada espírita na cidade, por conta da propaganda antidoutrinária que existia, e hoje, têm editoras católicas, evangélicas, protestantes, esotéricas, com respeito entre todas.

 

Antigamente era preciso um clarim – fazendo alusão ao estridente instrumento musical – para se falar alto e no bom tom sobre a doutrina espírita. E hoje, qual o grande desafio da divulgação?

 

Com a tecnologia que nós temos, o volume de informações, temos que aproveitar e divulgar a doutrina por todos os meios: internet, a grande mídia, TV, a imprensa não-espírita, a espírita, porque nós temos um público cativo, em potencial, mas é um desafio nosso fazer com que as nossas publicações cheguem nas mãos de outros leitores. Se a gente não faz a nossa parte, eles acabam se direcionando a outras coisas. Mas independentemente da grande mídia que devemos alimentar, temos que continuar trabalhando muito para que a imprensa escrita, através dos livros, dos jornais, chegue às mãos dos espíritas.

 

O senhor acha que já estamos preparados para realizar esta divulgação fora do movimento espírita?

Estamos dando os primeiros passos. Lógico que a abordagem tem que ser dada de maneira diferente. Jovens estão curiosos, e a abordagem que tínhamos 30, 40 anos já não dá mais. O que não pode é mudar a essência. Ela tem que permanecer, porque senão vamos transmitir um conceito errado e isso é mal para a Doutrina Espírita. 

Por falar em inovação na forma de divulgar, Cairbar foi um pioneiro na divulgação, buscando sempre novos caminhos. 

Sim, já na década de 30, ele percebeu a tecnologia disponível e foi um dos pioneiros na difusão da doutrina em programas radiofônicos. Usava a emissora PRB4, de Araraquara, SP, para fazer programa espírita ao vivo. Foi muito inovador. Haja vista que 1925, após o jornal O Clarim, fundou a RIE – Revista Internacional do Espiritismo,

que hoje chega em 33 países, com textos escritos também em inglês, com correspondentes no exterior, tudo isso para que nós espíritas brasileiros colaboremos para que a doutrina se firme e evolua no exterior. No caso da revista, foi um passo extraordinário que Cairbar deu.

  

O senhor diria que a frase dita por Cairbar, que a obra não era dele. Ele era apenas um modesto empregado da gráfica espiritual ainda é atual? Ele está firme no posto auxiliando o trabalho da divulgação?

Sempre é, pois veja a quantidade e qualidade dos espíritos que participaram no movimento e que já desencarnaram, e veja quantos bons espíritas trabalhadores encarnados. É lógico que os que se vão continuam interessados e ficam intuindo para o que é mais necessário. E a gente precisa estar muito bem com as antenas ligadas para receber essas intuições, usar inovações, abordando temas atuais à luz da Doutrina Espírita. Essa frase é sempre válida. Nós não fazemos nada sozinha. A gente tem prova de assistência da Espiritualidade em nosso trabalho.

Precisamos contar muito com eles para dar prosseguimento ao que temos que executar. Muitas idéias partem de nós. Mas sinceramente eu acredito que a maioria vem deles. 

Falando em idéias, uma realização muito importante no movimento agora está sendo a inauguração da TV Mundo Maior. Eu acredito que se Cairbar Schutel fosse encarnado, nós já teríamos uma televisão, ou um grande programa na TV.

Ele era muito inovador. Programas na TV, como A Terceira Revelação, da FEB, que é extraordinário, o do Nelson Morais, são passos importantes para a divulgação do Espiritismo. Fazemos votos de sucesso ao trabalho agora da TV Espírita, de nossos amigos que são idealistas, haverão de superar os problemas e dificuldades que existem em trabalhos desta natureza, onde há sempre forças negativas dos desencarnados e dos encarnados, dificultando. Eles irão superar.

Quero agradecer essa oportunidade que vocês dão, passando essas pequenas informações através do Correio Fraterno. Sabemos da luta da imprensa que todos nós temos. Mas nós estamos vencendo.

 

"O que tem de gente que passa nos stands espíritas pedindo informação é impressionante"

 Todo esse relacionamento traz um proveito muito grande para os editores espíritas, para se traçar novos rumos em direção aos postulados espíritas que devem ser divulgados. 

 "Muitos temas que estão sendo abordados em livros por editoras não-espíritas: reencarnação, continuidade da vida, EQM, são assuntos que fazem parte do arcabouço espírita"

  

Quero agradecer essa oportunidade que vocês dão, passando essas pequenas informações através do Correio Fraterno. Sabemos da luta da imprensa que todos nós temos. Mas nós estamos vencendo. 

Publicado no jornal Correio Fraterno, edição 408- mar/ abril 2006

 

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