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A ordem é questionar PDF Imprimir E-mail
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A escritora e desenhista Rita Foelker faz uma leitura sobre a educação espírita infanto-juvenil

 

Quem encontra Rita Foelker, com olhar inocente e feição de quase-menina não imagina que uma de suas maiores ocupações seja justamente filosofar, ou melhor, ensinar crianças e jovens a desvendar o mundo. Filosofar é um costume tão antigo como a própria Humanidade. Mas não tem mais que cinco anos que o projeto Filosofia Espírita para Crianças ganhou vida em suas mãos. No trabalho de educação espírita infantil, ela conquistou lugar de expressão, sendo requisitada não só no Brasil como no exterior para falar de sua experiência com a educação espírita infanto-juvenil. Nascida em Jundiaí, SP, hoje com pouco mais de 40 anos, soma quase 50 livros editados, incluindo obras mediúnicas. No evento de comemoração dos 150 Anos de Espiritismo de São Paulo, onde apresentou aos presentes o projeto, Rita Foelker concedeu ao Correio Fraterno a seguinte entrevista:

Mariana Sartor

Eu acredito que o mais importante para o educador, no momento, primeiro, seja uma preparação sólida , conhecendo o meio, o Espiritismo, aprendendo sobre a psicologia da criança, sobre a psicologia do espírito. Se ele puder se municiar com esses recursos e procurar conhecer técnicas de trabalho, como por exemplo, eu trabalho com origami, mas tem outras técnicas de trabalho que permitem resultados muito bons com a criança como sucata, poesia...Isso tudo vai certamente tornar o seu trabalho bem melhor desenvolvido, sendo o  desafio  bem mais fácil de ser enfrentado.

Os meios de comunicação espíritas podem colaborar no desenvolvimento do trabalho educacional infantil e juvenil? 

Eu acredito que uma das conseqüências do amadurecimento das redes de rádio e televisão espíritas seja, inevitavelmente, o encontro de uma solução interessante, inteligente e criativa para se tratar os temas infantis com propriedade e, introduzindo a cosmovisão espírita. Não é um trabalho de doutrinação, nem puramente didático, de passar noções, mas de fazer com que a literatura, o desenho, a arte e a poesia do programa infantil possam vir respaldados pelas noções espíritas e possam transmitir, junto com a beleza e com a leveza do conteúdo, os princípios e as leis morais do Espiritismo. 

 

Na sua visão, qual a principal dificuldade que as casas espíritas têm encontrado na área educacional? Quais os erros mais comuns?

 

A maior parte das casas espíritas trabalha isolada, o que restringe os recursos do educador, que conta com o conhecimento das pessoas que estão ali. Por mais que elas estejam preparadas, tem um limite. A busca pelo intercâmbio é interessante, para que, nesse diálogo, as soluções apareçam, a criatividade se expanda. Quando a gente está sozinho pensando numa idéia, só se tem um ponto de vista e a gente fica meio bitolado, só fazendo daquele jeito. Quando se troca experiência, todos crescem. Num encontro, você vai ter um acréscimo de conhecimento, um lastro de experiência para voltar para casa e construir um trabalho que é adequado a sua realidade.

 

 

Há novidades na metodologia educacional espírita para as quais as casas espíritas devem estar atentas?

Um trabalho bastante profícuo, que apresenta muita afinidade com o pensamento espírita, até onde eu estudei, é o desenvolvimento da teoria das inteligências múltiplas, por exemplo. Entender que o ser humano não é só razão, não é só sentimento, mas um espectro de habilidades, todas elas carecendo de desenvolvimento para que o espírito cresça integralmente. A série Educação Emocional, que escrevi há alguns anos, apresenta propostas que trabalha com a idéia de que somos não apenas seres que pensam e sentem, mas que se movem, pintam, seres que apreciam a música, que se relacionam consigo mesmos e tudo isso precisa ser cultivado para uma educação integral.

 

A arte é uma estratégia muito eficaz no desenvolvimento da educação infantil. Qual a sua opinião sobre a arte direcionada ao publico juvenil? É um meio de integração do jovem à doutrina da forma como tem sido trabalhada atualmente?

Eu acredito que a arte é um dos recursos mais ricos que se tem para se trabalhar, porque qualquer idéia que você trabalhe intelectualmente, quando abordada com a arte, surgem outros tipos de assimilação, uma outra compreensão, muito mais rica. Tanto apreciando a arte, como produzindo-a.  Eu sempre digo que, na casa espírita, embora a gente esteja estudando um conteúdo intelectual, devemos buscar a arte, a pintura, a escultura como forma de interiorizar os conceitos e valores.

  

Como você vê a participação da juventude no cenário da doutrina espírita?

Eu ainda acho que, embora isso varie de lugar para lugar, a juventude ainda precisa conquistar mais espaço. Parece que, em geral, ainda não se confia muito no jovem para desenvolver certas atividades que ele provavelmente desenvolveria muito bem, dentro da casa espírita. Não só auxiliando nos eventos, como hoje geralmente acontece, quando a casa espirita chama a mocidade para arrumar em almoços, etc., mas em outras atividades que exijam mais do jovem. Ele precisa ter esse espaço reconhecido, para também se sentir pertencente à casa espírita. O que não deixa de ser um treinamento, porque o jovem quando começa a participar de uma atividade e recebe uma oportunidade sob orientação, vai se desenvolvendo. Nas empresas não tem o estagiário? Ao mesmo tempo em que está fazendo não está aprendendo? E ninguém acha isso errado. Se você nunca faz, talvez nunca se interesse em fazer, porque você nunca aprendeu a fazer. Acredito que se existissem esses convites, as casas espíritas não se queixariam tanto da falta de trabalhadores. As pessoas querem fazer tudo num modo antigo e não percebem que existem maneiras muitas vezes mais eficientes e  modernas de se fazer as coisas. Os dois lados talvez devessem repensar isso.

 

Você está escrevendo algum livro neste momento?

 

Não bem escrevendo, mas preparando. Alguns dos trabalhos que eu tenho são coletâneas de artigos coletados, na imprensa, na Internet. Estou envolvida agora nessa seleção e revisão de textos que foram publicados nos últimos anos, mas ainda não tem nem título, nem data de lançamento. Eu estou trabalhando devagar para ficar o mais bem feito possível.

 

 

Em entrevista dada em 2002, você disse que não via o mundo se tornando espírita, a sua percepção com relação à internacionalidade da doutrina mudou? Como você analisa o crescimento da doutrina no exterior? 

O Espiritismo tornar-se internacional é inevitável.  O que eu acho que não vai acontecer é o Espiritismo tornar-se uma religião, ou uma doutrina universal. Os princípios espíritas estão ganhando terreno, estão sendo entendidos aos poucos. Mas, até por uma questão de respeito às culturas diferentes, eu imagino que muitos ainda vão continuar, felizmente, agindo eticamente, pregando a ética dentro daquilo em que eles acreditam. E eu acredito que a diversidade é importante porque onde todo mundo pensa igual, as coisas começam a ficar complicadas e perigosas, parecendo uma condução ideológica ou cultural. É importante ter diversidades, até para o espírita e o Espiritismo terem condições de fazer sua auto-análise, sua auto-avaliação, seu auto-ajuste, para não se perderem e não assumirem posições que acabem sendo contrárias àquelas proposta por Kardec, há 150 anos.

  

Você tem algum contato com projetos educacionais espíritas fora do Brasil?

 

Tenho. O grupo de discussão da Filosofia Espírita para Crianças, por exemplo, tem educadores de outros países, de Portugal, dos Estados Unidos. Eu estive visitando outros países, nos anos anteriores, conhecendo um pouco das dificuldades que eles enfrentam. Uma delas, por exemplo, é a falta de material no próprio idioma, nos países de língua inglesa, porque em Portugal a divulgação espírita é muito fácil: os livros já estão escritos em português, o que não acontece nos Estados Unidos.Então, para plantar uma sementinha, para ajudar a resolver esse problema, duas amigas e eu criamos um site em inglês o nome é Seed (semente), dirigido aos educadores espíritas dos países de língua inglesa. A gente recebe visitas, e-mails, o que está sendo muito interessante.  

 

Qual sua opinião sobre as crianças índigo? Você é contrária à associação da teoria das crianças índigo à doutrina espírita?  

Eu acredito que é muito importante fazer uma análise séria sobre o que estamos ouvindo nas casas espíritas. Muitas informações "desinformadas", criou-se uma aura em torno de um tema que, no fundo, não tem aura alguma. Não é da forma como ele vem sendo tratado. É preciso lembrar de Kardec, que nos ensinou a sermos cientistas, a sermos questionadores, filósofos, e a analisarmos as coisas antes de aceitar cegamente. Não estamos dizendo que não existem crianças espiritualmente evoluídas nascendo entre nós. A questão é se estes casos são de crianças evoluídas e se elas têm de fato essa missão que se diz ter.

O gosto pelo "pensar produtivo" necessita ser cultivado nos Espíritos, e não há idade mínima para isto

O Espiritismo toca nas mais graves questões da Filosofia. Como fé raciocinada, deve-se ensinar a refletir, a confrontar argumentos, concordar ou discordar

 

A polêmica questão das Crianças Índigo


Lee Carroll e Jan Tober, ambos escritores e palestrantes norte-americanos, publicaram em 1999, o livro The Indigo Children – As Crianças Índigo –, onde descrevem que seres de aura azulada e iluminados estão nascendo e haverão de formar a nova raça a habitar a Terra. Uma grande polêmica levantou-se no movimento espírita, pelo fato de o conceito Crianças Índigo estar sendo comumente utilizado, nas casas espítas, como sinônimo de espíritos evoluídos. Porém, no livro, Lee Carrol e Jan Tober descrevem que, embora iluminados, esses seres:

"Nascem, sentem-se e agem com realeza.(...) Conseguem inverter as situações, manipulando ao invés de serem manipulados, especialmente seus pais (...) Não se relacionam bem com pessoa alguma que não seja igual a elas (...) Alguns têm propensão ao vício, especialmente a drogas durante a adolescência."

Tal perfil de comportamento passa longe de qualquer descrição que Kardec ou os espíritos tenham traçado para conceituar os espíritos da luz. (I.V.)

 

 

O que é Filosofia Espírita para Crianças?

Praticar um ensino filosófico não é simplesmente transmitir princípios de uma crença. É analisá-los, questioná-los, buscar compreender melhor o seu significado e as suas conseqüências, especialmente as de ordem moral e ética.

Não se aceitam idéias como verdadeiras por imposição, mas sabendo porque as aceitamos. Esta é a essência da atitude filosófica: compreender o sentido e as conseqüências da realidade.

As crianças são filósofas espontâneas. Elas querem saber o que são as coisas e porque elas são assim e não de outro jeito.

Filosofia Espírita para Crianças é uma proposta pedagógica que pretende ajudar crianças e jovens nesta sua busca natural, agregando um método de trabalho que, sem tirar a naturalidade e espontaneidade do processo investigativo, resulte na produção de conhecimento com significado e em bases racionais.

Como funciona a Filosofia Espírita para Crianças?

Ela cria um espaço para a aprendizagem significativa, para o aprofundamento nos conceitos espíritas básicos e a percepção de suas relações com a vida prática, incentivando:

  • Cultivo das habilidades do pensamento
  • Busca de sentidos da realidade e percepção das conseqüências
  • Liberdade de questionamento
  • Comunicação fluente e participação ativa
  • Relação teoria/prática
  • Respeito a todos os pensamentos e opiniões

www.edicoesgil.com.br/educador/filosofia/filosofia_principal.html

Entrevista publicada no jornal Correio Fraterno, edição 415, mai/jun 2007

 

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