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O espírito guerreiro de uma casa espírita

 

Da redação

 

O fato de o nome de uma guerreira francesa ser dado a uma casa espírita pode causar estranheza para muita gente. Mas uma ocorrência na cidade de Uberlândia na região do cerrado mineiro, terra de Chico Xavier e Eurípedes Barsanulfo, fez com que isso se tornasse uma realidade.

Corria o ano de 1938. Um fervoroso senhor católico buscou o socorro dos espíritos para curar sua esposa, desenganada pelos médicos. Radiante e profundamente agradecido por tê-la plenamente recuperada, seu Onofre Fernandes de Oliveira só pensava numa coisa: manifestar a sua gratidão. Pensou em levantar uma casa espírita e deixar para sempre o seu reconhecimento à espiritualidade. Mas queria colocar na instituição o nome de sua santa a quem era devoto: Santa Joana d’Arc. Seu Onofre entendeu que qualquer santo nada mais é que um espírito mais evoluído, um espírito de luz! E porque então ele não poderia emprestar seu nome àquela boa causa? Os espíritas consentiram.

Setenta anos se passaram. E foi para comemorar uma bonita trajetória de muito trabalho e assistência que no dia 4 de outubro amigos, trabalhadores, familiares espíritas de outras casas se reuniram sob o mesmo teto do antigo Joana d’Arc para relembrar os fatos que fizeram história: a da França, com a narrativa do orador mineiro Licurgo Soares de Lacerda Filho sobre Joana d’Arc, e do próprio Centro, contada pela editora do Correio Fraterno, Izabel Vitusso, que conviveu estreitamente com os amigos da casa, no tempo em morou naquela cidade.

Licurgo, autor da coleção A mediunidade na história humana (Minas Editora), lembrou que a história da guerreira francesa se confunde com a própria história da França, uma trajetória de tamanha envergadura que se mescla com a da Humanidade. Apesar de tal importância, lembra o orador que a jovem de Domrémy, ou Joana d’Arc, permanece à margem dos livros de História, tornado-se quase uma desconhecida.

Ela foi uma jovem camponesa com impressionantes dons mediúnicos, que, atendendo aos apelos incessantes dos espíritos, guiou o exército francês contra o domínio dos ingleses. Depois de capitanear os inicialmente incrédulos soldados franceses, coroou como rei o estupefato Delfim – Charles VII –; protagonizando os momentos iniciais do capítulo final da Guerra dos Cem Anos. Sua breve existência terrena foi encerrada nas chamas da fogueira inquisitorial; acusada de herege.

Decorridos quatro séculos, o escritor Léon Denis caminhou lado a lado com Joana; ele como autêntico representante do Espiritismo, na França, ela como sua orientadora espiritual.

Mas ao contrário de Joana d’Arc, que empunhava bandeira destemida, quem foi chamado para dirigir o destino daquela casa recém-fundada em Uberlândia foi o caboclo recém-chegado da roça, Miguel Domingos de Oliveira, que se esforçava para vencer a timidez e dominar um Português melhor. Ele era ainda criança quando ouviu falar sobre espiritismo. Seu pai fazia entregas de queijo e rapadura em Sacramento-MG, na venda do seu Mogico – pai de Eurípedes Barsanulfo – e Miguel o acompanhava.

Seu Miguel se esmerou no estudo da doutrina, se superou na linguagem e transcendeu em sentimentos. Nos 60 anos em que esteve à frente da casa, ele, e sua esposa Dona Maria Ferreira de Oliveira, escreveu uma história de amor incondicional, principalmente às crianças, sessenta das quais educadas em seu próprio lar. História que continua a ser grafada pelos trabalhadores do Joana d’Arc, que aprenderam as lições com um espírito pacífico, que não teve medo tremular a bandeira do trabalho e enfrenta os desafios da vida, como quem enfrenta um bom combate.

 

Texto publicado na edição 424 (nov/dez de 2008)

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