
Aos 87 anos, um dos escritores espíritas mais lidos da atualidade, e ainda ativo, fala sobre sua produção literária e o estímulo que recebeu para escrever também para os não-espíritas
O Correio Fraterno – que ainda se chamava Correio Fraterno no ABC – exerceu relevante papel em minha busca de espaço, no qual eu pudesse partilhar com leitores e leitoras um pouco de minhas idéias, questionamentos, expectativas e até alguns desencantos com o rumo que as coisas do mundo começavam a tomar. Isso porque desde os primeiros impulsos de bisonho candidato a escritor, em 1956, sonhei alto. Queria, sim, escrever para o público espírita. Mas não desejava ficar apenas conversando entre nós, como que a escrever e falar uns para os outros no âmbito do movimento, do qual eu fazia e ainda faço parte. Além de textos voltados para dentro de nosso território ideológico, entendia que era necessário o diálogo com o público leigo. Gente curiosa e talvez interessada em saber como e o que pensamos a respeito daquilo que se passa à nossa volta. Aquele público, enfim, que raramente toma para leitura inicial uma obra da codificação, por exemplo, ou um texto sobre teoria e prática mediúnicas. Aliás, foi por aí que comecei, com Diálogo com as sombras, em 1975. Lembro-me de um desses incidentes menores e até insignificantes que me ocorreu. Certa vez, tomei um ônibus na cidade, rumo à minha residência. Um dia como outro qualquer. Menos para mim, pois trazia nas mãos o primeiro exemplar do Diálogo, que acabara de receber da editora. Uma senhora, a meu lado, pediu para ver o livro. Achou bonita a capa, criada pelo Cecconi, e muito sugestivo o título. Expliquei-lhe em poucas palavras, do que se tratava, certo, porém, de que aquela não era uma obra para ela. Que faria ela com um estudo que cuidava de teoria e prática mediúnicas, endereçado a leitores e leitoras espíritas militantes, envolvidos em tarefas de intercâmbio com os "mortos" ? Não sei dizer se foi isso, mas parece que aquela observação casual da vizinha de banco acendeu uma luzinha na minha mente. Talvez até me tenha perguntado: "Não estaria na hora de escrever algo que ela pudesse ler com algum proveito, mesmo sem a necessária formação doutrinária? Ela me oferecia, sem saber, uma espécie de amostragem de um público-alvo, ao qual nossos livros não costumavam chegar. E se chegassem, provavelmente não seriam entendidos como deveriam. Seja como for, o assunto deve ter ficado a rodar na mente. E foi com esse propósito que comecei a produzir textos não especificamente doutrinários – e, pelo amor de Deus! – sem qualquer intenção proselitista ou arrebanhadora, que costumo chamar de meramente estatística. Ou, melhor ainda, quantitativa. Apenas informativa. Nessa linha, comecei com A memória e o tempo, escrito aí pelo meado da década de 70, mas que somente seria publicado, em dois volumes, entre o final de 1979 e início de 1980. Pouco antes desse, em 1967, deu-se a pesquisa da qual resultaria o estudo intitulado Eu sou Camille Desmoulins. Esse trabalho teve de esperar pela passagem de alguns anos, aliás, mais de vinte. Ele exigia muitas e muitas horas de pesquisa adicional por uma livralhada espalhada, muitos deles raros, quase todos em francês. E mais: precisava ser todo transcrito de fitas magnéticas, nas quais o diálogo com Luciano dos Anjos fora gravado em dez ou doze sessões e com uma duração total de oito ou dez horas. Somente depois de aposentado, em 1980, me foi possível enfrentar a tarefa. Em suma: o livro somente sairia em 1989. Depois disso, vieram Nossos filhos são espíritos, Alquimia da mente, Autismo – uma leitura espiritual, Arquivos psíquicos do Egito e, mais recentemente, Negritude e genialidade e A noviça e o faraó, que acaba de ser lançado pela Lachâtre. Creio que essa estratégia deu certo, a julgar-se pela aceitação pública que se revela nas tiragens. A passagem pela editora Correio Fraterno me servira para confirmar que eu estava me esforçando por trilhar caminhos promissores, sem me perder pelos atalhos, sempre incertos e às vezes, enganosos. Eu estava tentando servir a um público leitor não-espírita, sem deixar de ser espírita. Aí, ao tempo do editor Wilson Garcia e demais dirigentes da instituição, já me acolhiam artigos para o jornal e também originai para a editora Correio Fraterno, como a tradução de A feira dos casamentos, de J.W.Rochester, que eu fizera a partir de uma edição em francês, como também a coletânea de Histórias que os espíritos contaram, impressa em três volumes: O exilado, A dama da noite e A irmã do Vizir. E, ainda, mais um livro intitulado O que é fenômeno mediúnico, um texto enxuto e em linguagem coloquial, com citação de bibliografia que servisse ao leitor para aprofundar-se no tema. Se bem me lembro, o livro foi escrito em duas semanas. Pelo que observo, todos continuam em catálogo. Desejo, portanto, destacar que a Correio Fraterno e outras organizações como a antiga Edicel, do saudoso Giannini, abriram o espaço de que eu necessitava para me dirigir à leitora e ao leitor interessados, mas não participantes do movimento espírita. Alguns desses títulos, senão todos, dificilmente seriam aceitos, para editar, por instituições espíritas mais conservadoras. Estas são algumas lembranças e o que tenho a dizer, no momento em que o veterano Correio Fraterno comemora 40 anos a serviço na difusão de nosso ideário. Parabéns pela data e muito obrigado pelas oportunidades que me ofereceram. A Correio Fraterno e outras organizações, como a antiga Edicel, abriram o espaço de que eu necessitava para me dirigir aos leitores não participantes do movimento espírita Livros de Hermínio Miranda, pela Correio Fraterno - O exilado
- A dama da noite
- A irmã do Vizir
- O que é fenômeno mediúnico
- A feira dos casamentos (tradução) – de J.W.Rochester.
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