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Home Nossas Seções Você Sabia? Entrevista com Bezerra de Menezes
Entrevista com Bezerra de Menezes PDF Imprimir E-mail
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Não, não se trata de entrevista com Bezerra  em espírito, que em agosto completaria mais um ano de vida – 174 anos de  seu nascimento (2005). É provável que seu compromisso  com o trabalho de assistência aos necessitados, com o qual se comprometera desde quando encarnado, não o permitisse  parar para conversas. Esta  entrevista foi realizada em 1892, pela Federação Espírita Brasileira1 e publicada, na época, em seu órgão oficial de divulgação, o jornal Reformador. Ela revela os sentimentos de um homem diante da busca de sua verdadeira crença. A vida passa a fazer sentido, quando ele a encontra. Bezerra de Menezes se entrega ao trabalho de assistência aos necessitados e não pára mais....

Que crença tinhas antes de ser espírita?

Nasci e criei-me até aos 18 anos no seio de uma família tradicionalmente católica, que levava a sua crença até a aceitação de um absurdo, por mais repugnante que fosse, imposto à fé passiva dos crentes, pela Igreja Romana. Aprendi aquela doutrina e acostumei-me às suas práticas, mas empiricamente, sem me preocupar com a razão da minha crença.

Dois pontos, entretanto, me apareciam lubezerra_de_menezesminosos no meio daquela névoa: a existência da alma, (...) e a de Deus.(...)

Continuei na crença, e práticas religiosas, que eu trouxe de berço, mas na convivência com os moços, meus colegas, em sua maior parte livres-pensadores e ateus, comecei por debater-me com eles e ao final acabei-me concorde, parecendo-me excelso não ter que prestar conta de meus atos.

Não foi difícil esta mudança, pela razão de não ser firmada em fé racionada a minha crença católica; mas apesar disto, a mudança não foi radical, porque nunca pude banir de todo a crença em Deus e na alma. (...)

Casei-me com uma moça católica e sempre respeitei suas crenças, guardando nos seios da minha alma a descrença. No fim de quatro anos, fui subitamente batido pelo tufão da maior adversidade que me podia sobrevir: minha mulher me foi roubada pela morte, em 20 horas, deixando-me dois filhinhos: um de três anos e outro de um.

Aquele fato produziu-me um abalo físico e moral de prostrar-me. As glórias mundanas, que havia conquistado, mais por ela do que por mim, tornaram-se aborrecidas, senão odiosas. (...) Nada encontrei que me fosse de lenitivo a tamanha dor. (...)

Abria um, outro, outro livro sobre a ciência, sobre literatura, sobre o que quer que fosse, mas não tolerava a leitura de uma página sequer.

Um dia, meu companheiro de consultório trouxe da rua um exemplar da Bíblia do padre Pereira de Figueiredo, entressachado de estampas finíssimas.  Tomei o livro, não para ler, que já não tentava semelhante exercício; mas para ver as estampas, com verdadeira curiosidade infantil.  (...) Senti desejos de ler aquele livro que encerrava minhas perdidas crenças, e que era vergonha para um homem de letras dizer que nunca lera.

Comecei, pois, e esqueci-me a ler o belo livro, até perder a condução para minha casa; e depois que estive nesta, sentia prazer em pensar que voltaria a lê-lo!

Eu mesmo fiquei surpreendido do que se passava em mim.  Li toda a Bíblia e, quanto mais lia, mais vontade tinha de continuar, sentindo doce consolação com aquela leitura. Quando acabei, eu sentia a necessidade de crer, não dessa crença imposta à fé, mas da crença firmada na razão e na consciência.

Onde lhe descobrir a fonte?

Atirei-me à leitura dos livros sagrados, com ardor, com sede; mas sempre havia uma falha, ao que meu espírito reclamava.

Começaram a aparecer as primeiras notas espíritas no Rio de Janeiro; mas eu repelia semelhante doutrina sem conhecê-la, nem de leve! Somente porque temia que ela perturbasse a paz que me trouxera ao espírito a minha volta à religião, embora com restrições.

Um colega 2, porém, tendo traduzido O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, fez-me presente de um exemplar que aceitei por cortesia.  Deu-mo na cidade, e eu morava na Tijuca, a uma hora de viagem de bonde.

Embarquei com o livro e, não tendo distração para a longa e fastidiosa viagem, disse comigo: ora, adeus! Não hei de ir para o inferno por ler isto; e depois é ridículo confessar-se ignorante de uma filosofia, quando tenho estudado todas as escolas filosóficas.

Pensando assim, abri o livro e prendi-me a ele, como acontecera com a Bíblia.   Lia; mas não encontrava nada que fosse novo para meu espírito, e, entretanto, tudo aquilo era novo para mim! (...)

Preocupei-me seriamente com este fato e a mim mesmo dizia: parece-me que eu era espírita inconsciente e que todas essas vacilações que sentia meu espírito eram marchas e contramarchas que ele fazia por descobrir o que lhe era conhecido e, porventura, obrigado a isto.

Que foi que o convenceu do Espiritismo?

Apesar de convencido da verdade do Espiritismo, eu nunca tinha assistido nem por mim tentado, a qualquer trabalho experimental, confirmativo sequer da comunicação dos espíritos.

Tendo sido atacado por dispepsia, que me reduziu a um estado desesperador, sem que me tivesse proporcionado o menor alívio a medicina oficial, apesar de ter eu recorrido aos primeiros médicos desta capital, resolvi, depois de um tratamento de cinco anos, recorrer a um médium receitista, em quem muito se falava, o sr. João Gonçalves do Nascimento.

Eu não acreditava nem deixava de acreditar na medicina medianímica, e confesso que propendia mais para a crença de que o tal médium era um especulador.  Em desespero de causa, porém, eu recorreria a ele, mesmo que soubesse ser um curandeiro. Tentava desesperado um recurso e fazia uma experiência sobre a mediunidade receitista.  Era preciso, porém, visto que se tratava de uma experiência, que eu tomasse todas as cautelas, para que ela pudesse dar uma convicção fundada.

Combinei com o dr. Maia de Lacerda, completamente desconhecido do tal médium, ser ele que fizesse pessoalmente a consulta, recomendando-lhe que assistisse ao trabalho do médium enquanto este escrevesse, e pedisse-lhe o papel, logo que acabasse de escrever; porque bem podia ter ele um médico hábil, por detrás do reposteiro, que lhe arranjasse aquelas peças.

É verdade que o médico, não sabendo de quem se tratava, visto que só se dava ao médium o nome de batismo e a idade dos consulentes, não podia adivinhar-lhe os sofrimentos, mas, em todo caso, eu queria ter a certeza de que era exclusivamente do médium, homem completamente ignorante de medicina, um trabalho sobre medicina.

O dr. Lacerda fez como lhe recomendei e trouxe-me o que, a meu respeito, escreveu o médium (...)

Tomei o papel, que dizia: “O teu órgão, meu amigo (era o espírito que falava ao médium) não é suficiente para satisfazer este consulente, atenta às circunstâncias de sua elevada posição social (eu era membro da Câmara dos Deputados), e principalmente de sua proficiência médica”.

“Entretanto, como não dispomos de outro, faremos com ele o mais que pudermos”.

“Vejo no organismo do consulente...” – segue uma discrição minuciosa de meus sofrimentos e suas causas determinantes, tão exatas aqueles quanto perfeitamente fisiológicas estas.

Não posso descrever o abalo que me produziu este fato estupendo!

Segui o tratamento espírita e, o que os mestres da Ciência não conseguiram em cinco anos, Nascimento obteve em três meses.

Em três meses, eu não estava completamente curado, mas estava forte, comia e dormia perfeitamente bem, era um homem válido, em vez de um valetudinário.

Continuei, com toda a confiança, aquele tratamento, e, em menos de um ano, achei-me bom.

Logo após este fato, deu-se de ser minha segunda mulher condenada como tuberculosa em segundo para terceiro grau, por importantes médicos. Disse  Nascimento, a quem consultei, com as precisas cautelas para ele não saber de quem se tratava: “Enganam-se os médicos que diagnosticaram tuberculose”  (quem lhe disse que os médicos haviam feito tal diagnóstico?).

“Esta doente não tem tubérculo algum. Seu sofrimento é puramente uterino e, se for convenientemente tratado, será curada.  Se os médicos soubessem a relação que existe entre o útero, o coração e o pulmão esquerdo, não cometeriam erros como esse”.

Sujeitei a minha doente, que já tinha febres, suores e todos os sinais da tísica em grau avançado, ao tratamento espírita, e em poucos meses tudo aquilo desapareceu. Em dez anos já decorridos, ela teve quatro filhos.

Como resistir à evidência de fatos tais?

Depois deles comecei as investigações experimentais sobre os vários pontos da doutrina, e posso afirmar que tenho verificado quanto é permitido ao homem alcançar,  a perfeita exatidão de todos os princípios fundamentais do Espiritismo.

Não cabe num trabalho desta ordem referir o resultado experimental alcançado sobre cada um, e por isto me limito a dizer: O Espiritismo é para mim uma ciência, cujos postulados são demonstrados tão perfeitamente como se demonstra o peso de um corpo.

Que fato de sua experiência mais o impressionou?

Nada me impressionou mais do que ver um homem, sem conhecimentos médicos e até sem instrução regular, discorrer sobre moléstias, com proficiência anatômica e fisiológica, sem claudicar, como poucos médicos o podem fazer.

Mais do que isto, porém, é para impressionar, ver dizer de um indivíduo, que não se conhece, que não se examina, de quem não se colhem comemorativos, e não se sabe senão que ele se chama Pedro ou Paulo e tem tantos anos de idade – dizer, em tais condições, que sofre de tais moléstias, com tais e tais complicações, por tais e tais causas, e confirmar o diagnóstico pelo resultado eficaz do tratamento aplicado naquele sentido.

Tive, porém, de minha experiência pessoal, um fato que muito me impressionou.

Eu estava em tratamento com o médium receitista Gonçalves do Nascimento, e este costumava mandar-me os vidros, logo que eu acabava uma prescrição, por um primo meu, estudante de preparatórios, que morava em minha casa, na Tijuca, a uma hora de viagem da cidade.

Meu primo costumava, sempre que me trazia os remédios (homeopáticos) da casa do Nascimento, entregar-me os vidros em mão e nunca, durante três meses que já durava o tratamento, me trouxe do médium recado por escrito, senão simplesmente os vidros de remédio, tendo no rótulo a indicação do modo como devia ser tomado.

Um dia, deixei de ir à Câmara dos Deputados, de que fazia parte, e, pelas duas horas da tarde, passeava, na varanda, lendo uma obra que me tinha chegado de novo, quando me apareceu um vizinho, o Sr. Andrade Pinheiro, filho do Presidente da Relação de Lisboa, e moço de inteligência cultivada.  O sr. Pinheiro não conhecia o Espiritismo, senão de conversa, e como eu fazia experiência em mim, ele aproveitava minha experiência, para fazer juízo sobre a verdade ou falsidade da nova doutrina.

Depois dos primeiros cumprimentos, perguntou-me como ia eu com o tratamento espírita. Respondi-lhe: “estou bem; sinto apenas uma dorzinha nos quadris e uma fraqueza nas coxas, como quem está cansado de andar muito”.

Conversamos sobre o fato de minha cura em três meses, quando nada alcancei com a medicina oficial, em cinco anos, e passamos a outros assuntos, até que, uma hora  mais ou menos depois, entrou meu primo com os vidros de remédio e com um bilhete, escrito a lápis, que me mandava Nascimento, e que dizia:

“Não, meu amigo, não estás bom como pensas. Esta dor nos quadris, que acusas, esta fraqueza das coxas, é a prova de que a moléstia não está de todo debelada.  És médico e sabes que muitas vezes elas parecem combatidas, mas fazem erupções, porventura perigosas. Tua vida é necessária; continua teu tratamento”.

É fácil compreender a surpresa, a admiração, o abalo profundo que me produziu na minha alma um fato tão fora de tudo o que tinha visto em minha vida.  Repetiram-me, da cidade, textualmente, as minhas palavras, como só poderia fazer quem estivesse ao alcance de ouvi-las.

Efetivamente, calculado o tempo que leva o bonde da casa do Nascimento à minha, reconhecemos, eu e Pinheiro, que aquela resposta me fora dada, na cidade, precisamente à hora em que eu respondia, na Tijuca, à interpelação do meu visitante.    Pode haver fatos mais importantes no domínio do Espiritismo; eu, porém, não tive ainda nenhum que me impressionasse como este (...).   Creio que se eu fosse ainda um incrédulo, desses que fecham os olhos para não verem, ainda assim não poderia resistir à impressão que me causou semelhante fato. Saulo não teve, mais do que eu teria, razão para fazer-se Paulo.

Acarretaram-lhe novas opiniões alguma influência física ou moral?

Influência física, nenhuma sentiu; porém moralmente sou outro homem.       Minha alma encontrou finalmente onde pousar, tendo deixado os espaços agitados pelo vendaval da descrença, da dúvida, do ceticismo que devasta, que esteriliza, que calcina, se assim me posso exprimir, recordando as torturas de quem sente a necessidade de crer, mas não encontra onde assentar sua crença.

E não encontrava onde assentar minha crença, porque o ensino de Jesus (...) me era oferecido sob um aspecto impossível de acomodar-se com um sentimento íntimo, intuitivo, exato, que me desse à razão e à consciência de ali estar a verdade; mas a verdade não é aquilo.

Ah! A Igreja Romana! A Igreja Romana!

O Cristianismo nunca terá tão formidável inimigo! O materialismo nunca terá aliado tão prestimoso!(...)

Minha alma encontrou finalmente onde pousar!

Posso dizer o meu credo – espírita – com aplauso de minha consciência, e não por força de uma autoridade que se arroga o direito de impor a fé!

Nestas condições, tendo encontrado a linfa que me saciou a sede de crer, posso ser tal como era antes?

A moral cristã, iluminada pelos inefáveis princípios do Espiritismo, não pode deixar de modificar, para melhor, a quem cultiva não somente por dever, mas também e principalmente por nela ter encontrado a paz do espírito!

Não sou por minha fraqueza, o que ela deve fazer do coração humano, não me posso julgar, sem incorrer em orgulho ou falsa modéstia; mas posso assegurar que já compreendo o meu dever para com Deus, para com os meus semelhantes, de um modo diverso, acentuadamente mais elevado, que antes de ser espírita.

Julgo, pois, que me é licito dizer, respondendo a este quarto inquérito da Federação Espírita Brasileira: Sim; acarretaram para mim, as minhas novas opiniões, sensível modificação moral.   E, para confirmá-la, basta consignar este fato:

Antes de ser espírita, só o pensar em perder um filho, fazia-me mentalmente blasfemar, punha-me louco. Depois de espírita, tenho perdido quatro filhos adorados, e depois de criados, louvando e agradecendo ao Pai de amor ter provado, por aquele modo, minha obediência a seus  sacrossantos decretos.


Rio de Janeiro, 15 de outubro de 1892

[1]  Bezerra de Menezes tornara-se espírita em 1882. No ano seguinte, Augusto Elias da Silva lançava o jornal Reformador, ainda hoje em circulação, em formato revista. Sentindo aumentar a pressão do movimento contra o Espiritismo, Elias da Silva procura Bezerra, que passa a  colaborar diretamente escrevendo para o jornal. Passado um ano, seguindo as orientações de Bezerra, de que era preciso amor para contrapor o ódio, frente às perseguições da igreja, Elias funda a Federação Espírita Brasileira, passando o Reformador a ser o órgão oficial da entidade.

[2]  Joaquim Carlos Travassos. (Nota da redação)

Texto publicado no jornal Correio Fraterno edição 404 de agosto de 2005.

 

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