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Home Nossas Seções Especial O pesquisador que identificou a presença de Balzac
O pesquisador que identificou a presença de Balzac PDF Imprimir E-mail
Especial
Escrito por Herminio Miranda   
Sáb, 11 de Fevereiro de 2012 08:05
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osmar ramos  2

Comovido com a notícia sobre o desenlace do pesquisador Osmar Ramos Filho em outubro último, Herminio Miranda elaborou este texto, onde analisa a trajetória do estudo que desvendou os bastidores da obra de Honoré Balzac desencarnado.Tudo começou em 1964, ano em que o médium Waldo Vieira psicografa Cristo espera por ti, ditada pelo escritor francês Balzac. Curioso e descrente, Osmar Ramos se aprofunda em análise meticulosa da obra, se impressiona com a semelhança dos estilos e escreve O avesso do Balzac contemporâneo.

***

Embora de família espírita, e sem rejeitar sumariamente os postulados doutrinários, Osmar Ramos Filho não foi espírita militante. Deixou, contudo,uma obra única no gênero, no conteúdo, na qualidade e no arrojo, criada em torno de uma temática mediúnica. Seu estudo deverá levar algum tempo para ser apreciado em suas verdadeiras dimensões e alcance.

Seu trabalho é de espantosa erudição, escrito numa linguagem elegante, criativa e correta. Merece amplamente, a meu ver, um doutorado póstumo. Que, se não existe, deveria ser criado.

Para nos situarmos no tempo e na temática, levantei alguns dados que nos permitam um mínimo de visão na contemplação do vasto espaço por ele ocupado no contexto da cultura internacional.

Tudo começou quando ele recebeu, numa visita a um centro espírita, um livro de autoria de Honoré de Balzac, o genial criador francês de A comédia humana. O livro chamava-se Cristo espera por ti, fora escrito por Balzac, ‘morto’, pelas mãos do doutor Waldo Vieira, médium espírita, destacado componente da comunidade que girava em torno de Chico Xavier, em Uberaba, MG. Osmar achou o título meio piegas. Além disso, era um livro mediúnico! A curiosidade, contudo, venceu a rejeição inicial. E, ainda com algumas reservas, começou a folhear a obra. Mal sabia ele que ali estava à sua espera o trabalho de uma vida inteira.

Para situar os eventos no tempo, elaborei a seguinte tabela cronológica:

1964 – Waldo psicografa o livro, no período inverno e primavera.

1965 – O livro é publicado pela IDE, editora de Araras.

1969 – Osmar, já graduado em psicologia, ganha bolsa de estudos e parte para Louvain, Bélgica, em busca do mestrado, com o qual foi agraciado no tempo devido. Foi lá que, ocasionalmente, se interessou pela temática do pasticho – texto com o qual um escritor procura imitar o estilo de outro – que usaria mais tarde no tratamento de sua pesquisa, a fim de não trazer para o bojo de seu estudo a conotação mediúnica, sempre rejeitada aprioristicamente.

1983 – Já de volta ao Brasil, Osmar descobre o livro de Balzac ‘morto’, ou melhor, o livro descobre Osmar e Osmar começa a pesquisa.

1994 – Osmar publica o resultado de sua pesquisa sob o título O avesso de um Balzac contemporâneo, pela Editora Lachâtre.

2007 – O livro intitulado Cristo espera por ti é relançado – já com notas e comentários de Osmar – pela Editares, do Grupo liderado por Waldo Vieira, em Foz do Iguaçu, PR.

2011 – (Outubro) – Antes de viajar para Caxambu, MG, onde costumamos passar o verão, ligo para Osmar, em Valença, RJ, para um dos nossos longos e costumeiros bate-papos. Entre outras coisas, pergunto-lhe como vai a pesquisa que ele e Virginia, sua dedicada esposa e competente companheira de trabalho, deram o título provisório de Dicionário.

Resposta: a obra está praticamente concluída, aí pela página número 1330!

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Isto precisa de uma explicação adicional. Ele descobrira, na França, um site antológico que oferece à consulta de estudiosos pelo mundo afora toda a obra de Balzac digitalizada. Era ali que ele punha em confronto o texto em português do Cristo espera por ti com a vastíssima obra original do genial autor. Além disso, em mais um de seus achados, havia adquirido mais uma edição completa dos livros de Balzac no original francês. Essa preciosa raridade bibliográfica era ilustrada e Osmar resolveu consultar o site francês sobre as gravuras e lá encontrou novos dados comprobatórios ao seu estudo.

Esta é a história muito abreviada de um trabalho intelectual sobre o qual o Cristo ficará também à espera de que as mentes daqueles que o lerem se abram e se convençam de que os chamados ‘mortos’ também escrevem para os ‘vivos’. Afinal de contas, vivos estamos todos nós, tanto deste lado da vida como do outro.

 

***

Antes do ponto final a este pobre testemunho de afeto e respeito a Osmar e à sua incansável Virginia, é preciso informar que, a despeito do vulto financeiro do que investiram nesse trabalho, jamais receberam qualquer remuneração sobre a impressionante obra realizada.

É preciso lembrar, ainda, que o cineasta brasileiro Geraldo Sarno produziu um primoroso documentário sobre o trabalho de Osmar: O último romance de Balzac. Levado ao Festival de Gramado, esse filme foi distinguido com honroso e merecido destaque – Prêmio Especial do Júri e prêmio de Melhor Direção de Arte – e suscitou amplo debate do qual participou Osmar. Por fim, aqui fico eu, ainda um tanto sufocado pelas emoções, sem saber o que mais dizer ao querido amigo que partiu e à sua Virginia que ficou por aqui mais algum tempo.

Estou certo, porém, de que, ao nos reencontrarmos do lado de lá, ele dirá, como dantes, com sua bem modulada voz: “E aí?” E eu não terei nada a dizer, senão expressar-lhe, mais uma vez, a amizade, a admiração e respeito pela pessoa que ele é e por sua obra imortal. Estou até a imaginar que Balzac talvez se encontre ao lado dele a sorrir, feliz, porque Osmar provou que os mortos também podem escrever livros geniais para os vivos. E os vivos, obras não menos geniais sobre os mortos.

 

Saiba mais sobre Osmar Ramos Filho

 


 

 

 

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