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Alice no país da terapia PDF Imprimir E-mail
Escrito por George De Marco   
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alice_siteTenho uma prima que se chama Alice. Licinha, para os íntimos. Sua história de vida, desde o momento que retornou a este planeta, faz dela uma das pessoas mais realistas, inteligentes, capazes e incompreendidas que conheço. Ela já se importou muito com isso. Agora, consegue enxergar cada vez melhor seu lugar no mundo, seu papel na presente encarnação. Está desenvolvendo, a cada dia, os “olhos de ver”. Conquistou isto com bastante reflexão, muito estudo do espiritismo, e também com o auxílio de terapia, o que recomenda. Tanto espiritismo e reflexão quanto terapia. Sua forma de analisar a humanidade, muitas vezes de forma bem divertida, tem me ajudado a também abrir os olhos para coisas que estão bem ali, na nossa cara, mas não enxergamos porque não queremos ver.

Desde que vim morar em São Paulo, troco e-mails quase que diariamente com Alice. O conteúdo é tão interessante que, na brincadeira, sugeri que os publicássemos em forma de livro. Está na moda.

Segundo ela: “venderiam-se três: Um meu, outro seu e outro da tia. Nem mãe tenho mais”. A tia a que ela se refere é a minha mãe, que acabou alimentando nosso debate sobre velhice e as manias que os idosos adotam, justificando muitas vezes o termo popularmente usado, como a segunda infância. Alice discorda: “sinceramente, não acho que tenha a ver com velhice, é da pessoa. É do ego exacerbado, do tem que ser a minha maneira, e ‘nequinha’ de gratidão”. E dispara contra o preconceito aos idosos: “você acha que esse problema só ataca os velhos? E os crimes no trânsito? E os crimes ‘por amor’? E as brigas em família?”.

A questão do ego é capital para minha prima: “O nosso ego é recalcado, mas nem por isso menor. O problema também está nas várias encarnações de mando, com tudo a nossa maneira, a tempo e a hora, com o respeito que impúnhamos de uma maneira ou de outra. Nossa palavra e ordens eram inquestionáveis e agora todo mundo tem a sua. Respeitar isso não é fácil, já que nossa autoridade não é mais reconhecida – logo nós, que sabemos de tudo, temos solução para tudo e fórmulas corretas para todos. Já se pegou achando que todo mundo é burro? Que não sabe como eles não enxergam o óbvio?”

Parece realmente que queremos sempre mais e mais, ficamos mais arrogantes, mais infelizes do que nunca e amando cada vez menos. E isso não tem mesmo a ver com a idade. “Não à toa”, – prossegue minha prima – “Francisco, o velho de Assis, pediu a Deus: Amar mais do que ser amado (...) Porque é morrendo (o ego) que nascemos para a Vida Eterna (aqui e lá)”. Precisamos estar mais cientes do nosso propósito e ir ao encontro dele, antes que a rabugice, a dor e o medo tomem conta de vez de nossas vidas. Que medo seria esse? Minha prima responde: “Eu não tenho medo da velhice ou da morte. Só tenho medo de mim mesma. Porque se se tem medo, é porque a consciência acusa, e ela tem sempre razão. E vez por outra a minha me acusa (que modéstia, só vez por outra) de não estar me esforçando de fato; lembrando-me, enfim, do que já imputei ao meu semelhante. Hoje a minha arma é a língua, que preciso também domesticar para não ferir mais ninguém. Mudei de arma, mas tenho que mudar mesmo é o sentimento, trocar a ira e a dureza pela compaixão que todos os tempos pedem de nós. Estou, na contabilidade divina, pior do que qualquer velho rabugento que já vê a dona Morte apontando o dedinho em sua direção”.

E, como boa tutora que se apresente, Alice sempre me dá conselhos valiosos, lembrando, por exemplo, o maior terapeuta de todos, Jesus: “‘Queres ser o maior? Seja aquele que mais sirva’. Pois é, primo, vou atrás dessa vontade inabalável de servir, pois o que já reparei mesmo é que por ser mais velha, penso merecer mais direitos, mais considerações. Daí nascem as reclamações e ressentimentos, que por serem desprezíveis, não fazem parte de mim, mas só dos outros”. Afinal de contas, é mais fácil nos aceitar como pensamos ser e não como realmente somos. Mas precisamos desta verdade enquanto estamos a caminho. “É uma lição necessária, embora nem sempre estejamos preparados para saber de algo escondido de nós mesmos. Precisamos de equilíbrio para lidar com o que percebemos e saber o que fazer. Senão a decepção é inevitável”. É assim que Licinha se despede em outro iluminado e-mail, com mais uma frase admirável: “A vida é realmente muito boa, se lembrarmos que é uma escola maravilhosa!”.

George De Marco é jornalista, publicitário e radialista. Realiza atividades como expositor e educador de mocidade espírita. E-mail: Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

 

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