
As chuvas de janeiro inundaram as casas de todos nós. Não só no sudeste, onde efetivamente foi mais forte a devastação. Por toda a parte, imagens da água descendo, barrancos caindo e pessoas desesperadas em busca de seus familiares entraram por dentro de nós.
A gente sempre se comove com o que acontece a alguém semelhante a nós. A chuva atingiu a ricos e pobres, negros e brancos, homens e mulheres de todas as idades, em vários pontos do Brasil e do mundo. E quantos ‘milagres’! A mulher que não sabia nadar e ficou boiando, com a família inteira, rente ao teto da casa; o pai que protegeu o filhinho de seis meses sob um monte de escombros, alimentando-o com a própria saliva; a mulher que foi literalmente içada da enxurrada com o auxílio de uma corda, que fora ‘eventualmente’ colocada no alto de um prédio, um dia antes, para o início de trabalhos de pintura.
Ouvindo tantos casos de pessoas que se salvaram, pessoas que na última hora decidiram ir para o lugar da devastação e acabaram morrendo, pessoas que ficaram ilhadas e pessoas que não conseguiram escapar, a gente acaba se lembrando dos relatos que sempre ocorrem após os desastres de avião. Por que será que alguns dos que eram para estar lá no momento do acidente desmarcam a passagem poucas horas antes?
“Não cai uma folha de uma árvore sem que seja do conhecimento de Deus”, diz o Evangelho. Mas... Será que era só para eles a prova? Pelo tamanho da devastação ocorrida dentro de cada um de nós, só de ver e ouvir tantas cenas e relatos percebo claramente que não. As chuvas deste janeiro mexeram com cada um de nós.
Talvez pudéssemos descrever esta sensação como uma espécie de “constatação da impermanência”. Não temos o controle sobre os fenômenos naturais, não temos o controle sobre nossas próprias vidas. Tal como acontece na parábola do rico insensato, que mandou ampliar seus celeiros ao constatar que eram insuficientes para armazenar os frutos de seus campos de cultura, Deus também pode dizer a qualquer um de nós: “esta noite tua alma será chamada, e o que tanto juntaste, para quem será?”
Me vem à mente uma cena vivida recentemente com meus filhos. Atravessava a rua com o carrinho do bebê de onze meses, segurando de um lado Alice, de dez anos, e do outro Estevão, de sete, e ainda Sophia, de doze, quando Alice subitamente abaixou-se no chão para pegar uma porcaria qualquer – um pedaço de árvore!, quando quase fomos todos atropelados por um carro que vinha em disparada. Chegando ao outro lado da calçada, com as mãos ainda trêmulas, eu falava sem parar ‘na cabeça dela’, quando Estevão me interrompeu e resumiu com serenidade:
- E nem ia poder levar o negócio para o mundo espiritual!
Num momento em que tantos perdem tudo o que tinham de uma noite para outra, em que casas inteiras aparecem cobertas de lama ou de água nas imagens de TV, não podemos deixar de nos questionar a este respeito. Quanto vale um fogão, uma geladeira, uma porção de móveis e roupas, uma casa inteira?
Significativamente, o bairro mais devastado pelas chuvas em Teresópolis, chamava-se Posse. Talvez para nos lembrar de que não temos a posse de nada. Tudo nos é dado, temporariamente, para que possamos realizar o aprendizado que um dia, com o auxílio de nossos mentores espirituais, nos predispusemos a vir fazer na Terra.
O que mais nos salta à alma em situações como esta, mesmo para aqueles que não tiveram uma só gota de chuva a manchar o assoalho, é o tamanho da nossa ingratidão habitual. Acostumamo-nos a levantar todos os dias sem agradecer pelo fato simples, mas tão importante, de acordarmos mais um dia, de encontrar de novo com nossos entes queridos, de ter um pedaço de pão para comer, água para beber, roupas lavadas para vestir, tantas oportunidades para ajudar e fazer o bem, por nossa casa não ter sido inundada!
Por que será que a gente precisa experimentar o sentimento de perda – ainda que apenas catarticamente, assistindo a uma reportagem de TV –, para perceber a grande oportunidade que é estar encarnado neste planeta?
Como espíritas acostumados a revirar a lei de causa e efeito em busca de explicações para tudo o que acontece, muitos de nós talvez tenham chegado à conclusão de que “aquelas pessoas precisavam passar por aquela prova”. Todavia, considerando-se que Deus jamais dá provas superiores às forças daqueles que as recebem, cabe-nos refletir até que ponto “aquelas pessoas” ou, pelo menos, muitas delas, não estariam situadas em um patamar evolutivo muito superior ao nosso, uma vez que tiveram condições de passar por esta prova e ainda encontrar forças para ajudar o próximo, como tantos casos mostrados na TV. Fica gritando por dentro a pergunta: estaríamos preparados para passar por uma prova destas?
Lygia Barbière Amaral é novelista, autora de diversos romances espíritas, incluindo o recém-lançado A luz que vem de dentro (Ed. Correio Fraterno).
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