
Érico Veríssimo (1905-1975) é um dos mais populares escritores brasileiros do século 20. Ele narra em sua autobiografia, Solo de clarineta, que quando contava com a idade de 14 anos, ajudava um médico que fazia curativos num homem que havia sido surrado por policiais militares. Cabia a ele segurar a única lâmpada elétrica que iluminava o local. Tomado pelo horror da cena e por certa náusea, Veríssimo, porém, não ousou largar seu posto. Se o ferido aguentava as suturas que o médico lhe fazia sem gemer, por que ele não ficaria ali, ajudando o doutor? Esta experiência fez com que Veríssimo chegasse à seguinte conclusão, já adulto e escritor consagrado: "O menos que um escritor pode fazer, numa época de atrocidades como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como sinal de que não desertamos nosso posto".
Toda vez que escrevo um artigo estou acendendo meu toco de vela. Ou riscando fósforos repetidamente. Assim é com todos que escrevem, principalmente os que têm a responsabilidade de divulgar o espiritismo. Convenhamos, não é fácil, como nunca é fácil fazer valer a luz no meio das trevas. Talvez por isso, muitos acabem naufragando nos mares da facilidade de escrever por escrever, sem compromisso nem responsabilidade com a doutrina espírita. Kardec sabia disso.
Allan Kardec coordenou, no século 19, a sistematização dos ensinamentos dos espíritos que contêm elementos científicos, filosóficos e uma orientação ético-moral. Assim, foi concebida a doutrina espírita, ou espiritismo – não um toco de vela, mas um farol de luz para a humanidade. Cuidadoso, Kardec escreveu na Revista Espírita de 1858 verdadeiras diretrizes, norteando o trabalho de divulgação do espiritismo. Numa delas, Kardec destaca que não se deve responder a ataques contra o espiritismo, abstendo-se de polêmicas personalistas, mas fala em discussão dos princípios que professamos. Parece óbvio, mas vale a pena traduzir: Não sendo uma doutrina hermética, o espiritismo está aberto a debates e a polêmicas mas devemos entregarmo-nos somente a discussões em defesa dos princípios espíritas. Eis a postura de todo e qualquer veículo de comunicação: imparcialidade e responsabilidade com os fatos.
Mas esta responsabilidade não diz respeito apenas a quem divulga. Fala, também, a quem lê. Sim, amigo leitor, amiga leitora: é sua responsabilidade saber separar o joio do trigo. De exigir integridade e postura firme do seu veículo de divulgação. Por isso, o Espírito Verdade conclamava: “Espíritas, instruí-vos”, pois nosso bom amigo e mestre Jesus já ensinava que só o conhecimento da verdade liberta. Um espírita bem informado não se submete a qualquer coisa, cujo conteúdo passa longe, muito ao largo, da verdadeira doutrina; nem perde seu tempo com pseudoautores “espíritas” que se apresentam com a "missão de salvaguardar e divulgar o espiritismo" utilizando-se de opiniões que revelam o quanto há de misticismo no meio espírita. Urge, pois, que “acendamos nossa candeia”.
Mas haja toco de vela!
George De Marco é publicitário e radialista. E-mail:
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Texto publicado na edição 440 julho/agosto de 2011 do Jornal Correio Fraterno
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