
“A natureza não dá saltos”. Esta é a afirmação do filósofo alemão, Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) em seu livro Princípio da continuidade. O propósito de Leibniz foi criar uma doutrina compatível com os postulados de todas as correntes filosóficas, desde os modernos como Francis Bacon, Thomas Hobbes, e René Descartes, até aos aristotélicos e escolásticos. Além de formular novas ideias, buscou aclarar questões confusas e enganos nos sistemas filosóficos – principalmente na filosofia de Descartes – reconciliando-os pela união de seus pontos comuns, descendo a detalhes para descobrir concordâncias de ideias ou remover contradições. Leibniz afirma que, assim como a correnteza é a causa do movimento do barco, mas não de seu atraso, também Deus é a causa da perfeição da Natureza, mas não de seus defeitos. Ao criar o mundo tal como ele é, Deus escolheu o menor dos males, de tal forma que o ele comporta o máximo de bem e o mínimo de mal.
Alguns estudiosos acham falsa a afirmativa que Leibniz visse apenas como politicamente importante para os Estados Alemães a união religiosa e o espírito de tolerância entre católicos e protestantes. Eles defendem que Leibniz, do mesmo modo que buscava fórmulas conciliadoras na filosofia, também tentou encontrá-las na teologia, por acreditar que as verdades fundamentais estavam contidas em cada corrente contrária, filosófica ou teológica, bastando mostrar as coincidências para se chegar à conciliação. O projeto não foi adiante por razões políticas e pela desunião entre os próprios protestantes. Leibniz esbarrava na natureza humana, que também não dá saltos.
O espiritismo nos ensina que todos os espíritos são criados simples e ignorantes, conforme o capítulo 7, parte segunda de O livro dos espíritos. Se fôssemos criados prontos, perfeitos, não teríamos merecimento para desfrutar os benefícios dessa perfeição. Mas ser criado simples e ignorante não significa ser mau ou bom, isso fica por conta do nosso livre-arbítrio, que se desenvolve à medida que evoluímos moral e intelectualmente, partindo de espíritos imperfeitos até chegarmos a espíritos puros. Degrau por degrau, sem saltos. Compreender a evolução segundo a ótica espírita é fácil.
Mas, por um destes mistérios que envolvem a natureza humana, difícil é entender porque os homens preferem tentar saltar etapas, mergulhando uma lição tão simples e clara num caldo de receitas místicas, buscando transformações apressadas e drásticas. Os resultados, quando não ideias estapafúrdias ou pseudorreligiões, descambam para ameaças contra a vida humana, personificadas em pessoas como Adolf Hitler, que adorava uma teoria conspiratória.
Com sua mentalidade biorracista, Hitler conformou sua estranha cosmovisão pangermânica do mundo através do sectarismo, do ódio e pela exclusão, secundada por um grande número de símbolos, dando contornos ritualísticos ao holocausto. Um destes símbolos, a suástica, já era utilizada por celtas, tibetanos, hindus e outras culturas bem anteriores à era cristã. O Führer enxergou naquela cruz gamad, uma forma de suplantar a religião de Jesus.
Hitler é, sem dúvida, uma síntese de tudo que o ser humano é capaz de criar, distorcendo informações, religiões e até fatos históricos, visando seu próprio interesse. Não à toa, Joseph Goebbels, chefe da propaganda nazista, cunhou a célebre frase “de tanto se repetir uma mentira, ela acaba se tornando verdade”.
O espiritismo não está livre deste tipo de comportamento. Tornou-se comum ouvirmos vozes falando em ‘atualização’ e ‘revisão’ das obras básicas da codificação ou, ainda, criação de movimentos paralelos e a aceitação de ideias pseudodoutrinárias, apoiadas por pessoas que, muitas vezes, não percebem – ou não querem perceber – que servem de instrumento das sombras, alimentando os monstros que às vezes se nutrem ora da boa fé, ora da ignorância, mas que sempre devoram quem os alimentou, afinal.
George De Marco é publicitário e radialista. E-mail:
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