
Nunca gostei de falar em público, pois me julgava uma pessoa muito tímida. No ano passado, fazendo o curso de espiritismo, na Federação Espírita do Estado de São Paulo, descobri que essa era uma limitação imposta pelo meu orgulho. A timidez que me acompanhava nada mais era do que uma forte manifestação do alto apreço pela minha própria pessoa. Mas, como um dia as nossas máscaras caem, a descoberta dos meus verdadeiros sentimentos acabou provocando a mudança.
Foi como se eu renascesse. Uma experiência muito difícil, mas necessária, pois tive de lidar primeiramente com a aceitação da minha soberba para, depois, anulá-la ou amenizá-la. Conforme transcorria o ano letivo, a classe recebia trabalhos para desenvolver. Primeiro, em grupos, fomos interagindo com os colegas; depois, apresentando os relatos para toda a turma. Assim, cada vez mais ia sendo colocada à prova a capacidade de lidarmos com a própria exposição, enfrentar a timidez. E como compreender esse tolhimento que me paralisava? Cheguei até a pensar em desistir do curso...
Um dia, ansiosa, falei com uma das expositoras da classe. “Sou tímida!”, afirmei, tentando achar um motivo plausível para não ter de discorrer para a classe minhas impressões sobre um capítulo do livro Viagem espírita de 1862. Meu grupo já havia quase se dissolvido e justo naquela aula restávamos eu e outra colega, tão ou mais tímida que eu. Ao confessar sobre minha timidez queria mesmo era me livrar da tarefa, que certamente sobraria para mim. A resposta que obtive da expositora foi: “A timidez é uma forma de orgulho.”
Fiquei chocada. A expositora explicou que o fato de eu não querer falar em público era uma maneira de evitar que fosse julgada, pois nosso orgulho não permitia isso. Ao falarmos para um grupo supomos que em vez de pessoas, ouvintes interessados, temos juízes a nos apontarem os defeitos. Como não queremos mostrar nossas dificuldades, escondemo-nos atrás da timidez, do isolamento, uma forma errônea de perceber os frutos do próprio orgulho.
Depois da explicação, ‘caiu a minha ficha’. Decidi que iria enfrentar o desafio e que falaria de qualquer forma, tentando ser mais humilde. À frente do grupo, apresentei então minhas impressões sobre o tal capítulo do livro. Tudo transcorreu de forma tranquila, não era um ‘bicho de sete cabeças’. Olhava para o rosto dos ouvintes e percebia que estavam interessados e atentos. E também que eu podia errar. Quando terminei, estava muito feliz, pois havia rompido uma barreira à qual me confinara durante anos.
Acredito que seja justamente isso o que o estudo da doutrina espírita proporciona – autoconhecimento e discernimento. O maior aprendizado está em acabar com as desculpas que criamos para as nossas próprias mazelas, fator indispensável para vivermos de maneira íntegra e verdadeira. Há a famosa frase do filósofo Sócrates que diz: “Só há um bem, o conhecimento; só há um mal, a ignorância.” E outra, que complementa esta, cujo autor é desconhecido, diz assim: “O conhecimento liberta da ignorância. Todavia, somente a aplicação do que se aprendeu liberta do sofrimento.”
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