
Ao final da reunião espírita, quando todos do grupo comentavam suas impressões a respeito do trabalho, uma das médiuns contou-nos que um espírito havia sussurrado ao seu ouvido a sua história. Eram muitos detalhes. Como temia esquecê-los pediu para eu anotá-los.
O jovem se chamava João. Vivia numa colônia espiritual, mantendo-se sempre em trabalho, embora não lhe fossem atribuídos serviços de maior envergadura. Eram trabalhos simples e úteis que mantinham seu espírito ocupado e prestativo. Havia levado uma vida boa, responsável e, quando desencarnou, fora acolhido por parentes e amigos. Após um período de sono, despertou numa clínica de recuperação e, tão logo fora liberado, pôde ocupar-se de uma atividade útil na colônia espiritual.
Gostando quando encarnado de rock e de um “sambinha maneiro”, agradecia por não ter que ficar ouvindo o som de harpas tocadas por anjos e fadas. Disse que morreria de tédio, pois a morte não transformava as pessoas. Mantinha seus gostos, mas andava agitado com a ideia da reencarnação. “Seria uma boa” – pensava –, ainda mais que havia ouvido falar que poderia fazer três pedidos ao seu mentor. Pedira beleza, riqueza e fé.
Analisaram sua ficha e trouxeram-lhe a resposta. Não haveria muitos problemas com os dois primeiros pedidos. A dificuldade maior seria com o terceiro. “A fé não lhe pode ser dada; você terá que conquistá-la”. Teria assim que perder a beleza e a riqueza para aprender a desenvolver a paciência, a coragem e a perseverança, arando o próprio solo, adubando o terreno com algumas virtudes para poder semear a fé.
João empalideceu. Pensou, pensou, coçou a cabeça e decidiu:
– Melhor ficar por aqui. Vou deixar esse papo de reencarnação para depois.
Hamilton Camargo Rodrigues é de Uberlândia, MG
Texto publicado na edição 441 do Jornal Correio Fraterno
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