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Home Nossas Seções Mundo Sustentável O ar que respiramos: acidente de percurso ou suicídio indireto?
O ar que respiramos: acidente de percurso ou suicídio indireto? PDF Imprimir E-mail
Escrito por André Trigueiro   
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lixoesesSenti em meu próprio corpo os efeitos de uma experiência na qual me ofereci como cobaia em São Paulo. Durante seis horas circulei pela maior cidade do país com um arsenal de equipamentos acoplados ao meu corpo para medir frequência cardíaca, pressão arterial, inalação de poluentes e outros indicadores importantes à saúde. Fui batizado de “homem-bomba do bem” pela equipe de cientistas do Instituto Saúde e Meio Ambiente e do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP. O objetivo da experiência era medir a resposta do meu metabolismo a um passeio a pé, de carro e de metrô por São Paulo.

Perdi a conta de quantas vezes soprei num equipamento parecido com bafômetro e, a cada vez que repetia o exercício, me sentia com menos fôlego. O fato é que em apenas 20 minutos o índice de monóxido de carbono (CO) em meus pulmões havia dobrado. A inalação desse gás letal permaneceu alta durante toda a experiência.

Já reparou alguma vez naquela nuvem de poeira que cobre as grandes cidades e pode ser vista de longe? Os cientistas chamam isso de material particulado. Poeira, fuligem e demais partículas em suspensão estão perigosamente próximos de nós. Pior do que isso: dentro de nós. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o índice máximo recomendado é de 25 microgramas por m3. Na Avenida Salim Farah Maluf o equipamento registrou 811 microgramas por m3, trinta vezes mais que o padrão de segurança estabelecido pela OMS. Nesse momento, o pneumologista e coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP, Paulo Saldiva, lembrou assustado o que havia acontecido em Londres em 1952. Naquele ano, índices semelhantes aos que estávamos detectando em São Paulo obrigaram as autoridades britânicas a agir depois de contabilizar 14 mil óbitos por complicações decorrentes da poluição. Políticas públicas restritivas às emissões de poluentes foram adotadas em favor da saúde da população. O chamado “Episódio Londres” justificou um artigo científico publicado na prestigiada revista médica The Lancet.

Os equipamentos também revelaram que meu coração não reagiu bem a tanta poluição. Minha frequência cardíaca confirmou um problema que a literatura médica já havia diagnosticado antes em situações parecidas: quando realizamos qualquer esforço extra, o coração deve acompanhar esse movimento e trabalhar mais. No meu caso, aconteceu justamente o contrário. É como se meu metabolismo estivesse travado, algo comum quando estamos imersos em uma nuvem de poluentes. Em situações como essa quem tem propensão a arritmia ou tem risco de infarto aumenta em até quatro vezes as chances de sofrer algum problema mais sério.

Segundo o dr. Paulo Saldiva, os paulistanos estão vivendo em média dois anos a menos do que poderiam se não houvesse tanta poluição. São quatro mil óbitos precoces a cada ano, decorrentes de complicações causadas pela péssima qualidade do ar. Estima-se que os prejuízos causados pela poluição em São Paulo - perda de saúde, de produtividade e expectativa de vida menor – somem US$1,8 bilhão por ano. "Com isso daria para construir 18 km de metrô e quase 60 km de corredor de ônibus por ano. A gente está de alguma forma subsidiando com a nossa saúde uma estratégia equivocada de mobilidade, de pensar a cidade", afirmou Saldiva. Tudo isso foi mostrado no programa Cidades & Soluções da Globo News.

O que registramos em São Paulo não é exclusividade da maior cidade do país. Todas as grandes cidades brasileiras – já colapsadas ou em vias de estrangulamento em suas ruas e avenidas pela multiplicação indiscriminada de veículos automotores – já não conseguem garantir uma boa qualidade do ar para seus moradores. Estamos realizando escolhas que precipitam nosso retorno à Pátria Espiritual ou prejudicam nossa saúde enquanto estagiamos nesse plano da existência. No livro O céu e o inferno, Allan Kardec assevera que “o suicídio não consiste apenas no ato voluntário que produz a morte instantânea, mas em tudo quanto se faça conscientemente para apressar a extinção das forças vitais”. Não seria este o caso? Poluir deliberadamente e sem noção de limite um elemento fundamental à vida como o ar não seria um atentado contra a nossa própria existência? São questões que deveriam justificar mais atenção e respostas firmes de cada um de nós. Respire fundo e busque na qualidade do ar que o cerca a inspiração necessária para o que vier a fazer.

 

"Experiência em São Paulo mede os efeitos da poluição no corpo humano" programa do André Trigueiro na íntegra

 

André Trigueiro é jornalista, apresentador do Jornal das Dez e editor do programa Cidades & Soluções, na Globonews, ganhador do Prêmio Green Best, pelas iniciativas e consumo  sustentáveis. www.mundosustentavel.com.br

 

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