
Até que se prove o contrário, Jesus não deixou uma palavra escrita, não registrou sua passagem pela Terra em primeira pessoa. Mas seu messianato foi assunto de extensas reportagens assinadas por aqueles que o acompanharam de perto e eternizaram nos evangelhos a ‘boa nova’. Sucessivas traduções e edições comprometeram parte deste legado, mas os jornalistas do cristianismo primitivo cumpriram – como se esperava deles – a nobre tarefa de compartilhar o que viram e ouviram ao longo dos três anos de convivência com o Mestre. Paulo de Tarso, judeu perseguidor de cristãos que se converteu ao cristianismo, transformou-se no mais importante divulgador dos evangelhos a partir de suas epístolas – cartas – num monumental esforço para tornar a vida e a obra de Jesus conhecidas do maior número possível de pessoas, a partir das mídias disponíveis à época. Se houvesse naqueles tempos rádio, tvs, jornais, revistas ou internet, Paulo não hesitaria em usar todas essas ferramentas midiáticas em favor da universalização desse conhecimento místico, transcendental e libertador. Ao longo da história da Igreja, imperadores e papas adaptaram a ‘boa nova’ de acordo com suas conveniências. Se bulas e encíclicas determinavam as novas diretrizes da instituição, o índex da Igreja estabelecia quais livros – a mais importante e sofisticada mídia durante muitos séculos – deveriam ser evitados pelos cristãos. No século 16, Martinho Lutero escreveu em 95 textos sua visão de uma nova teologia e os afixou na porta de uma igreja na Alemanha. Nascia a Reforma, que, apesar de toda a perseguição imposta a seus seguidores, cresceu e se multiplicou em diversas correntes. No século 19, um pedagogo discípulo de Pestalozzi codificou uma nova filosofia espiritualista a partir de um intenso e exaustivo trabalho de reportagem. Hippolyte Léon Denizard Rivail formulou centenas de perguntas endereçadas ao além com o precioso auxílio de médiuns confiáveis. A entrevista resultou na mais importante obra do cristianismo redivivo, moderno, contextualizado, o ‘consolador’ prometido por Jesus. O espiritismo nasceu, portanto, de uma entrevista. O lado repórter de Allan Kardec – pseudônimo do professor Hippolyte – exalta as qualidades de um ofício onde credibilidade, humildade e perseverança são aliados fundamentais. Neste início de século 21, em que a inovação tecnológica permite que todos sejamos, indistintamente, provedores de conteúdos, disseminadores de mensagens, semeadores de ideias nas mais diversas redes que se interligam mundo afora em questão de segundos, convém perguntar: que emprego estamos fazendo dessas geniais ferramentas ao nosso alcance? O que importa divulgar e de que jeito? Se as palavras – escritas ou faladas – contêm o poder do ‘verbo’, da energia que vitaliza, transforma e edifica, é enorme a responsabilidade daquele que se comunica para um, mais de um, ou muitos. Não importa qual seja o público-alvo. Importa a intenção de quem comunica e a credibilidade auferida a partir do exemplo. Bons comunicadores são bons semeadores. A terra está pronta para o plantio. Há fome de verdade e sentido. Vamos semear?
André Trigueiro é jornalista, apresentador do Jornal das Dez e editor do programa Cidades & Soluções. www.mundosustentavel.com.br
Texto publicado na edição 440 julho/agosto de 2011 do Jornal Correio Fraterno
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