
As formigas constituem um dos mais sofisticados sistemas sociais conhecidos. Existem há cem milhões de anos, apareceram no planeta muito antes de nós e se dividem em mais de 12.500 espécies diferentes. De aparência frágil, este inseto vem resistindo às intempéries da natureza e às ações predatórias do homem graças a seu apurado senso de organização coletiva.
Formigueiros são sistemas sociais onde há ordem e hierarquia. Os papéis estão muito bem definidos e todos trabalham para mantê-los em equilíbrio e paz. O exemplo da formiga é apenas um, dentre tantos na natureza, em favor do trabalho coletivo que assegura a paz e o bem-estar social.
Na questão 766 de O livro dos espíritos, Allan Kardec pergunta à Espiritualidade Maior:
P: A vida social está na natureza?
R: Certamente. Deus fez o homem para viver em sociedade.
Somos seres sociais e só podemos ser explicados e compreendidos a partir das relações estabelecidas com os outros que nos cercam. Nos alimentamos dessas relações e precisamos delas para crescer e evoluir. O espiritismo não avaliza o estilo ‘ermitão’, daquele que se exclui do convívio social para seguir sozinho, encapsulado em si mesmo. Essa é a paz do ‘Mar Morto’. Na tradição do budismo, quando o príncipe Siddhartha alcança o nirvana através da meditação à sombra de uma árvore, em vez de permanecer em seu mundo perfeito, ele retorna para compartilhar com os homens o seu conhecimento e a sua sabedoria. Não fosse assim, não seria o Buda.
Evoluímos renunciando ao egoísmo, ao orgulho, à vaidade, em favor do próximo. O outro nos serve de instrumento para alcançarmos a evolução. O amor-doação, o amor-renúncia, o amor-sacrifício são exercícios espirituais fantásticos que nos projetam na direção da luz. Em sociedade, encontraremos sempre oportunidades evolutivas preciosas, ao nosso alcance, para seguir em frente. Sempre haverá ao nosso redor alguém privado de saúde, de alimento, de esperança, de consolo, de conforto, de trabalho, de paz. Alguém que nos instigará a construir a ponte na direção do amor. Não alcançaremos a plenitude se não for assim. E não haverá paz efetiva enquanto algum de nós ainda estiver em sofrimento.
O grande desafio é que precisamos nos organizar socialmente para alcançarmos a paz. Não somos formigas, mas devemos buscar o bom exemplo do formigueiro para entendermos a importância de consagrar parte do nosso tempo e energia em favor de um projeto coletivo, contribuindo efetivamente para esse sistema em equilíbrio. Como alcançar esse objetivo numa das sociedades mais desiguais do mundo? Sim, a maior nação espírita do planeta (que vem a ser também a maior nação católica e uma das maiores potências evangélicas) acolhe um dos sistemas sociais mais desiguais da atualidade. Quem trabalha em favor da paz, jamais poderá tolerar a desigualdade. Na questão 806 de O livro dos espíritos, quando Kardec indaga se a “desigualdade das condições sociais” é algo inerente à natureza, a resposta é direta: “Não. É obra do homem e não de Deus.” Promover com coragem e abnegação a igualdade de gênero, raça e credo é um bom começo. Não repetir piadas prontas que reforcem o preconceito é outra boa dica. Reservar parte do tempo para alguma atividade voluntária, não remunerada, em favor de alguma causa que esteja na linha de frente do combate à desigualdade é uma das expressões mais bonitas e urgentes de caridade. Para que sejamos efetivamente ‘irmãos em Cristo’, há muito que fazer. Comecemos já.
André Trigueiro é jornalista, apresentador do Jornal das Dez e editor do programa Cidades & Soluções. www.mundosustentavel.com.br
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