
Bem poucas vezes a expressão “vivemos num mundo de expiações e provas” serve de reflexão real e profunda sobre a nossa condição ainda frágil, em que alegrias e aflições se misturam, numa Terra que exige respeito, cuidados e gratidão dos seus sete bilhões de habitantes, que ainda demonstram uma infância moral que preocupa.
Falta serenidade e até mesmo tempo para perceber que a vida não pode ser apenas agitação, que exige momentos de calmaria, que não se traduzam em tédio, mas em prazer, em alargamento de visão de esperança e de fé, aquela mesma que move montanhas, ainda que seja pequena como um grão de mostarda, mas firme, por trazer em si toda a potencialidade para se tornar amparo e incentivo para se seguir em frente.
Não há como repetir e repetir o Evangelho, “segundo no espiritismo”, ou seja, em sua concepção moral e não mítica, sem se perceber que não dá mesmo para ser feliz com tantas dificuldades. A morada é de expiações ainda, campo de provas, porque reúne amorosamente os que ainda têm muito a aprender e a conhecer, com as dificuldades individuais e coletivas, conquistas amealhadas pelo nosso conjunto de ações, de acertos e desacertos que conseguimos até hoje.
Não há mais como alegar desconhecimento. A proposta de Allan Kardec, no século 19, de analisar, em uma das obras básicas do espiritismo, as máximas evangélicas, reunindo-as de acordo com seu sentido moral, é de uma utilidade indiscutível. Está tudo ali e bem fácil seria se bastasse ler e reler seus itens e capítulos. Mas a ética espírita vai muito mais longe. Solicita além do entendimento racional dos ensinamentos, a vivência em si mesmo de tais preceitos, não apenas como leis a seguir, mas um caminho a ser trilhado rumo à felicidade, com os próprios pés.
Sim, a humanidade não dá saltos na evolução moral. Embora constante, tudo é muito lento no progresso do espírito, até que o aprendizado se torne autônomo, ou seja, livre, de dentro para fora. O processo contínuo de lutas deixa suas marcas indeléveis na memória espiritual dos homens, cuja história vai se repetindo em lições cada vez mais aprimoradas, como a lembrar na consciência os lampejos constantes de orgulho, vaidade e egoísmo pela momentânea impossibilidade de um olhar mais abrangente da vida, que paute as ações presentes. Aqui e agora, afinal é nossa condição existencial, ‘no mundo’.
Lembra Léon Denis, em sua obra O problema do ser, do destino e dor que chegaram a censurar Kardec por ter, em suas obras, repisado a ideia de castigo e expiação. “Diz-se que ela dá uma falsa noção da ação divina; implica um luxo de punições incompatível com a Suprema Bondade”. Segundo Denis, tal apreciação seria superficial, faltando-lhe justamente o discernimento daquele olhar mais abrangente. “A ideia, a expressão de castigo, excessiva talvez quando ligada a certas passagens insuladas, mal interpretadas em muitos casos, atenua-se e apaga-se quando se estuda a obra inteira”.
Assim, aos mais atentos, fica claro que a felicidade em seu sentido teleológico não é mesmo deste mundo, porque exige que seja compreendida numa extensão muito maior, que ultrapasse as ideias materialistas, não apenas como alegrias transitórias, mas como um estado de alma, apenso à condição evolutiva do espírito, que aos poucos vai aprendendo a senti-la através das suas múltiplas experiências reencarnatórias. Assim, o que nos deixava felizes no passado não é mais o que nos faz plenos hoje. Nossas necessidades também se refinam.
Como a felicidade que o mundo oferece ainda está restrita à condição material, de momentos felizes fugidios, a humanidade sente-se atônita no seu desafio existencial. Afinal, tudo lhe escapa fácil: a beleza, o dinheiro, os relacionamentos, o emprego, a vida.
Comenta Herminio Miranda em livro O que é fenômeno anímico, (recém-lançado pela Editora Correio Fraterno), que estamos vivendo um momento importante, no qual o modelo materialista apresenta rachaduras consideráveis, exigindo que a humanidade se debruce urgentemente sobre novas ideias.
É assim que, ao mesmo tempo em que a geração atual se debate, paira no ar uma vontade de coisa nova, que preencha os vazios existenciais, que ensine a perguntar, a pensar, muito mais do que a dar respostas.
Como tudo está gravado no espírito, que tem a própria lei divina em sua consciência, atestando a imanência de Deus na Criação, a humanidade terrena já sente, ainda que em momentos fugazes, a necessidade de buscar novas respostas para a aflição que se lhe assalta e ensaia sair do torpor dogmático que ainda a prende nas amarras da espera que defina o certo e o errado, quando a verdadeira sanção do bem e do mal é da consciência. Ainda segundo Denis, é a consciência que registra “minuciosamente” todos os nossos atos. “Mais cedo ou mais tarde, erige-se em juiz severo para o culpado que, em consequência de sua evolução, acaba sempre por lhe ouvir a voz e sofrer as sentenças”.
Aí está a explicação lógica da dor. O preconceito de que sofremos apenas porque somos imperfeitos e devedores, como se fôssemos prisioneiros, marionetes indefesos de um mundo de expiação e provas pode ser, em vez de consolador, acomodador. É urgente a conscientização de nossas potencialidades, para que assumamos posições seguras e intransferíveis com relação à nossa evolução e à evolução da sociedade da qual fazemos parte. Por mérito, pelo o tanto que já conquistamos. Por oportunidade, pelo tanto de campos de ensaio que a existência nos oferece para o aprendizado do amor.
A dor, também, não fere somente os culpados, mas a alma virtuosa, como explica Denis, por ser mais sensível. “É mais adiantado o seu grau de evolução, o que a impulsiona muitas vezes até mesmo a procurar a dor, por lhe conhecer todo o valor”, assinala.
Em tempos de crise, numa sociedade consumista de enormes diferenças, onde uns morrem de fome e outros jogam comida no lixo, não é tão fácil pensar num futuro solidário, de progresso e de paz. Mais fácil imaginar que, a continuar assim, o mundo vai mesmo acabar. E aí o desespero e o comodismo abrem suas asas, gerando a paralisação, a espera da solução que venha de fora.
É bom lembrar que nada está perdido e que Jesus está no comando do Planeta, da humanidade terrena. Um comando que não representa um conjunto de atitudes autoritárias e arbitrárias, a separar os bons dos maus, tornando-nos passivos diante da dor e tragicamente destinados a ‘pagar’ pelos nossos erros. Não. Estamos todos juntos nesse ideal de amor por um mundo melhor, porque essa é finalidade maior. Caso contrário, ele não teria vindo à Terra para nos exemplificar as lições. Pessoalmente.
Deixemos a atitude de espera sem trabalho. Responsabilizemo-nos. Resignação é uma conquista do coração, mas não combina com acomodação. Jesus também espera por nós, pelas nossas mudanças, pelos nossos exemplos, pelos nossos esforços, pelas nossas atitudes de amor, que serão o bom fermento que levedará a massa, que necessita crescer e se multiplicar no Bem. Jesus conta, sim, com a nossa evolução para a manutenção da harmonia do orbe terrestre. O que vamos oferecer? Como vamos contribuir?
Há ares de mudanças na civilização terrena, que desperta para o aspecto espiritual do homem em todos os campos do conhecimento. E, então, o que aprendemos? Que transformações já observamos? O que modificou em nós o conhecimento do Evangelho? O que temos feito com essas lições todas, lidas e relidas, para a construção de um mundo melhor?
Se a maior lição de Jesus foi o exemplo, se ele é mestre a seguir, como discípulos, devemos fazer o mesmo: exemplificar o que sabemos. Esses exemplos não podem mais ficar apenas contidos nas quatro paredes dos centros espíritas, mas terão que de se exteriorizar em atitudes responsáveis de amor. E atitude quer dizer participação, contribuição, compartilha.
Quando falamos em sacrifício, em sofrimento, em dor, lembramos de Jesus, Sócrates, Joana d’Arc e tantos outros famosos da História, mas quantos, no dia a dia, não sofrem solitários no silêncio e no esquecimento, no cumprimento do seu dever moral, deixando exemplos infindos, impulsionando núcleos familiares, profissionais e sociais?
Amemos, pois. E, se amar melhor depende do nosso coração e do nosso entendimento, que possamos então nos livrar das máscaras do nada-tenho-a-ver-com-isso, como se fôssemos seres à parte da Criação, à espera da salvação, quando ela clama por nossa atenção.
Como narra o evangelista João, Nicodemos – senador e mestre judeu – procurou Jesus um dia para conversar sigilosamente, espantando-se ao ouvi-lo dizer que o Reino de Deus não chegaria a quem não nascesse de novo, ou seja, a quem se habilitasse a buscar uma nova forma de vida, novos valores, uma nova forma de fé. E para isso só há uma saída: mudança.
Texto publicado na edição 442 - novembro/dezembro do Jornal Correio Fraterno
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